publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 19 Maio , 2010, 18:03

 

Primeiro começa por ser uma sensação omnipresente de que falta algo, um membro, uma parte do corpo temporariamente inutilizada, um sentido, algo que era tão «nosso» que a sua ausência se sente em cada minuto. Depois, como sempre acontece, vamo-nos acostumando e só pensamos nessa falta naquelas ocasiões em que precisamos dessa parte para conseguirmos alcançar algo ou superar alguma coisa, ou para celebrar algum feito ou partilhar um sentimento de felicidade. Aprendemos a viver com essa nova condição. Agora somos assim. Mas, no entretanto, pequenos nadas servem para recordar bruscamente, com toda a violência, maior porque nos apanha desprevenidos, o que era antes. Por vezes são uns óculos, agora sem préstimo, que encontramos ao abrir uma gaveta; ou um velho casaco, esquecido no fundo de um armário; ou um marcador que encontramos ao abrir ao acaso um livro que sem o saber compartilhámos. A existência material guarda-nos essas marcas aparentemente insignificantes, que a princípio nos ferem pela sua assincronia, e que depois, pouco a pouco, nos vão deixando uma tristeza cada vez mais esbatida, uma reminiscência que se recorda com ternura - às vezes quase com indiferença, que tentamos evitar como se de uma questão de bons princípios ou de boa educação se tratasse. É que nem o mundo material, nem o mundo do espírito, foram feitos para a conservação de objectos ou sentimentos sem utilidade. Na inevitável - todos temos os nossos defeitos ... - citação proustiana (de cor): "não há nada que permaneça e dure, nem mesmo a dor" (algures no 2.º volume; mais tarde, no tomo final se mostrará como esta conclusão verdadeira mas simplista pode ser estilhaçada - mas isso já não pertence aqui).

 

É este sentimento, este esbatimento, que está retratado no sereníssimo poema de Ruy Belo:

 

 

MISSA DE ANIVERSÁRIO

 

Há um ano que os teus gestos andam 
ausentes da nossa freguesia 
Tu que eras destes campos 
onde de novo a seara amadurece 
donde és hoje? 
Que nome novo tens? 
Haverá mais singular fim de semana 
do que um sábado assim que nunca mais tem fim? 
Que ocupação é agora a tua 
que tens todo o tempo livre à tua frente? 
Que passos te levarão atrás 
do arrulhar da pomba em nossos céus? 
Que te acontece que não mais fizeste anos 
embora a mesa posta continue à tua espera 
e lá fora na estrada as amoreiras tenham outra vez 
                                                                  florido? 

Era esta a voz dele assim é que falava 
dizem agora as giestas desta sua terra 
que o viram passar nos caminhos da infância 
junto ao primeiro voo das perdizes 

Já só na gravata te levamos morto àqueles caminhos 
onde deixaste a marca dos teus pés 
Apenas na gravata. A tua morte 
deixou de nos vestir completamente 
No verão em que partiste bem me lembro 
pensei coisas profundas 
É de novo verão. Cada vez tens menos lugar 
neste canto de nós donde anualmente 
te havemos piedosamente de desenterrar 
Até à morte da morte 

Ruy Belo, in "Aquele Grande Rio Eufrates"


 

 

 

 

 


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