publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 25 Agosto , 2009, 15:07

BICHOS, CÉU E MORTE

 

Que teixugos perdi na minha infância

 

que tordoveias que foram

horas felizes que depois voaram

e que andorinhas

que nem bem poisavam nos fios

as estonteantes

 

que passo miúdo sempre em fuga

das codornizes pela vinha

 

e que sei eu ainda

que ninhos de caçapos que leveza

de pêlo fofo entre maçãs

meio podres caídas num caminho

que vinha do Mirante

descendo quase a pique para a estrada

 

que tiros secos de caçadores

nas ínsuas que arruído

ao voo das perdizes de asa tenra

que logo uma levava a sua carga

de chumbo e se atrasava e tonta

se enredava no restolho

que eu apartei um dia à mão

para vê-la morrer indecifrável

 

e que brandos

que ventos brandos lentos

meneando os ramos das carvalheiras

que torpor de medo à noite

à hora das estrelas que me lembro

delas a atravessarem o céu

diz-se riscar o céu e é verdade

que o fazem com as unhas

talvez os próprios anjos luminosas

 

que dor pré-cordial que miserável

saudade se me entorna em tudo isto

que bem feitas as contas

não é nada de nada na saca do mundo

que não é senão

um que nem se palpa

na peneira do mundo

 

Variações em Sousa, 1987


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