publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 02 Outubro , 2009, 23:45

A comunicação presidencial da passada terça-feira deve ser uma das declarações políticas mais comentadas dos últimos anos. É uma peça enigmática, que conscientemente pouco explica, e não prima pela elegância, como é do timbre do seu autor (que todavia, tem outros méritos mais relevantes). Para alguns, é a confirmação do carácter maléfico, anti-democrático e arcaico que sempre reconheceram ao actual Presidente; para outros, é apenas uma intervenção desastrada e muito arriscada que não expôs (ainda) males maiores (julgo que foi o melhor que até agora se conseguiu arranjar). No entanto, pensoque a maioria das observações até agora feitas perde de vista o carácter da intervenção presidencial, que não é (não pode ser) táctico, mas sim estratégico. Representa a afirmação presidencial de que um Governo minoritário do PS não pode contar com o seu apoio, ao contrário do que sucedeu com o Governo de Cavaco em 85 e com os Governos de Guterres. E um Governo minoritário sem apoio ou pelo menos tolerância presidencial é uma impossibilidade lógica. Daqui resultam uma série de interrogações: quis o Presidente fazer uma tentativa desjaitada de recomendação ou imposição de um  Bloco Central? Aposta o PS em eleições a curtissimo prazo, para recuperar a maioria absoluta (que o Presidente não permitirá certamente)? Desistiu Cavaco Silva já da sua reeleição (mas ano e meio é muito tempo em política)? O conflito inevitável que se seguirá será surdo por vontade do Presidente e estridente por vontade do Governo. Mas é o Presidente que tem a melhor mão nesta situação. E desenganem-se os habituais arautos da reforma constitucional (desta vez para reduzir os poderes presidenciais): o Presidente não utilizou nenhum dos seus poderes de direcção política, mas o singelo poder de exteriorização do seu pensamento, acessível a qualquer (supostamente) inócuo Presidente de um sistema parlamentar: basta pensar nas intervenções espantosamente desajustadas e inconvenientes (e nas delirantes gaffes...) do Presidente alemão Lübke (1959-1969).

 


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