publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 22 Março , 2010, 04:24

É um livro interessante, mas apresenta alguns defeitos de concepção que tornam a leitura por vezes fastidiosa, sobretudo no primeiro capítulo, onde o Autor pretende apresentar uma espécie de «Teoria Geral do Estado» adaptada ao caso timorense, com escassos resultados positivos. Há também, relativamente a Portugal alguns erros grosseiros - como o pretendido apogeu de um império português no século XVII... - e algumas simplificações primárias - como a afirmação de uma suposta aquiescência portuguesa à integração de Timor-Leste na Indonésia, que segundo o Autor só teria sido revertida á partir de 1992, após o massacre de Santa Cruz -, mas, tirando esses factos, não existe qualquer distorção dos acontecimentos ou qualquer «sentimento» anti-português ao longo da obra. O Autor é um académico respeitado e conhece bem o terreno, tendo coordenado missões de observadores ao Referendo de 1999 e às Legislativas de 2007. As virtudes do livro suplantam em muito os seus (poucos) defeitos. A visão sobre os acontecimentos em Timor-Leste desde 2006 (o livro é de 2009), ainda que largamente descritiva, oferece uma panorâmica precisa dos eventos. Onde o livro me parece especialmente bem sucedido é na explicação da animosidade entre Xanana e a Fretilin a partir das divisões internas que foram ocorrendo neste partido ao longo dos anos 80, entre uma ala mais radical, a dos exilados, e uma ala mais pragmática, que sofria no terreno o peso da ocupação indonésia. As purgas da Fretilin e os constantes desentendimentos que culminaram na saída de Xanana e na autonomização das Falintil da Fretilin são neste livro claramente mostradas como os «momentos fundadores» da violência que eclodiu em 2006. Mais uma vez, a objectividade do Autor permite-lhe apresentar também uma leitura credível da governação e actuação da Fretilin antes e durante a crise. O livro é de novo especialmente incisivo no que respeita à descrição  da (des)coordenação da ajuda ao desenvolvimento e, sobretudo, da própria estrutura das Nações Unidas criada para esse efeito, ficando evidentes não só as «guerras internas» entre os departamentos da Organização que prejudicaram a sua actuação em Timor-Leste, mas também as causas da sua ineficácia geral. O Autor dá-nos ainda uma pré-revelação bombástica: a de que identificou, através de uma fonte que não revela e que teve acesso aos registos das comunicações móveis efectuadas por Alfredo Reinado, a identidade do político timorense que financiava as actividades do Major - reparem, é de um político timorense que se fala, não de generais ou gangsters indonésios. Kingsbury afirma que não revelará a identidade desse político timorense até que seja deduzida uma acusação formal, prometendo que avançará o nome caso essa acusação não venha, afinal, a ser deduzida. Apenas diz que não se trata nem do Presidente da República nem do Primeiro-Ministro. Até quando teremos de esperar?


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