publicado por nobilissimavisione | Sábado, 27 Março , 2010, 17:40

1. Remexio. A voo de pássaro, ficará a talvez 10 a 15 km de Díli, acima da Ribeira de Hera, a subir a pique. Pela estrada, sai-se do caminho para Aileu para um trilho de meia dúzia de quilómetros quase intransitáveis. Mais de uma hora de carro. Dois dias antes de lá ter estado, a estrada estivera fechada devido a derrocadas provocadas pelas intensas chuvas. No caminho que vai na direcção de Laclo, a paisagem é mais seca, com floresta aberta de eucaliptos de Timor (palavão-preto e palavrão-branco), mas soberba; continua-se a subir-se e anda-se durante horas por uma cumeada, com as montanhas mais altas da cordilheira de um lado e o mar com as silhuetas de Alor e de Ataúro do outro. Nestes confins remotos, ouve-se inesperadamente o timbre límpido de uma flauta. Mais à frente, aparece o jovem flautista, no cima de um cabeço. Algumas cabras dispersas fazem as vezes de rebanho.

 

2. Também no Remexio se faz sentir o ímpeto do proselitismo. Para além das clássicas confissões protestantes, todo um conjunto de novas igrejas tentam a sua sorte em Timor-Leste. Queixa-se o pároco do Remexio que nem sempre recorrem a métodos leais, utilizando rapazes e raparigas com promessas de namoro como chamarizes para captar novos fiéis. Conta o mesmo pároco que promoveu uma reunião com os responsáveis das novas igrejas para tentar obter uma maior lisura de procedimentos e, revelando uma visão estratégica, uma aliança para impedir o estabelecimento de quaisquer outras confissões ou seitas na aldeia. A difusão do protestantismo anda muitas vezes de mãos dadas com o ensino da língua inglesa. No Remexio, acresce o ensino da flauta, por uma professora de Singapura - neste caso com sucesso, como pude comprovar.

 

3. O Remexio desempenhou um papel importante na resistência ao invasor indonésio. As dificuldades no acesso e os muitos esconderijos aí existentes fizeram com que fosse dos últimos locais relativamente próximos de Díli a cair nas mãos dos indonésios. Do cerco indonésio resultaram muitos mortos.

 

4. Mas o Remexio tem também outras memórias. Andando cerca de uma hora e meia no caminho para Laclo, encontramos na beira da escarpa um singelo monumento evocativo da RENAL. Enquanto a zona esteve em poder da Fretilin, nos anos a seguir à retirada de Díli em Dezembro de 1975, foi instalada no Remexio uma Renal (Campo de Reabilitação Nacional), onde eram aprisionados não só os suspeitos, por qualquer razão, de colaboração com o invasor, mas também os que supostamente se desviavam dos ideiais revolucionários. A voragem autofágica e as purgas daqueles tempos ocasionaram muitas vítimas nestes campos (milhares?). As condições do aprisionamento e dos trabalhos forçados já de si eram poucas propícias à sobrevivência dos detidos, mas a isso acresceu a tortura e a execução de muitos dos supostos prevaricadores e dos seus familiares, por vezes através de execuções colectivas. Uma punição característica destes campos era o encerramento dos prisioneiros em buracos com uma profunidade que por vezes não chegava a um metro, com uma grade por cima, onde acabavam por morrer de sede ou fome, ou então com o lançamento de uma granada, como sucedeu na Renal do Remexio. Muitas destas atrocidades estão registadas no Relatório da CAVR (Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação). Mas outras não estão, como a que me foi relatada por habitantes do Remexio, de uma mulher que, tendo comido um pedaço de jaca sem autorização, foi forçada a ingerir jaca, com a respectiva casca, até morrer. As campas destas pessoas estão muitos metros abaixo do monumento em sua memória, não se deixam ver de cá de cima. Todos os anos a comunidade evoca o período da RENAL encenando alguns destes acontecimentos.

 

O Remexio tem muitas memórias.

 


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