publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 30 Junho , 2009, 17:44

LOS VERANOS

 

   Fueron largos y ardientes los veranos!

Estábamos desnudos junto al mar,

y el mar aún más desnudo. Con los ojos,

y en unos cuerpos ágiles, hacíamos

la más dichosa posesión del mundo.

 

   Nos sonaban las voces encendidas de luna,

y era la vida cálida y violenta,

ingratos con el sueño transcurríamos.

El ritmo tan oscuro de las olas

nos abrasaba eternos, y éramos sólo tiempo.

Se borraban los astros en el amanecer

y, con la luz que fría regresaba,

furioso y delicado se iniciaba el amor.

 

   Hoy parece un engaño que fuésemos felices

al modo inmerecido de los dioses.

Qué extraña y breve fue la juventud!

 

 

                                              Francisco Brines

 

 


publicado por nobilissimavisione | Domingo, 28 Junho , 2009, 13:38

A história do café de laco é uma das minhas histórias preferidas de Timor-Leste, pois ilustra a simbiose entre o Homem e o laco (e o fruto do café), resultando a "colaboração" dos três num produto de excelência. O laco é um bichinho muito engraçado, parece de facto um peluche: do tamanho de um gato, focinho comprido, ollhos grande, cauda grande, pelo catanho escuro curto. Diz-se que são facilmente domesticáveis. Ora, o laco alimenta-se de fruta, incluindo os frutos do café. Séculos de especialização permitem-lhe um excelente know-how na escolha dos frutos do café no ponto ideial da maturação. Comido o fruto do café, é expelido interiro, nas fezes do laco, apenas sem a película vermelha exterior. É limpo e depois torrado. Tem um sabor forte, que advém da fermentação que sofre dentro do dito laco. O laco é um animal nocturno, e à noite o cheiro dos seus excrementos nos cafezais distingue-se facilmente. Tudo isto pode parecer matéria organica a mais, mas o sector primário da economia é isso mesmo, e o café é de facto muito bom, atingindo preços perto do milhar de dólares em Nova Iorque (também se diz que é bebido pela Rainha de Inglaterra). Não é fácil encontrar o café de laco, mesmo em Timor-Leste; se não fosse a minha amiga Maria Ângela, não o teria conseguido provar. Aliás, a Maria Ângela tem um post bastante desenvolvido sobre este assunto no seu blogue do Público, para onde remeto com a devida vénia. Como isto parece uma história de encantar, falta a parte triste: diz-se que o laco é muito apreciado na gastronomia imorense, e que faz um óptimo estufado, razão pela qual é caçado com persistência. Não sei se isto é verdade ou não, mas uma vez em Díli, perto do Palácio das Cinzas, vi um laco a ser transportado numa gaiola pendurada num pau ao ombro de um homem. Apreçado o animal, era sessenta dólares (americanos); ainda pensei em comprá-lo para o devolver (ou forçar) à liberdade, mas logo desisti e me conformei com a dureza da vida e do mundo. Este café do laco poderia ser um produto de exportação com interesse, dado o seu alto valor e as potencialidades de markentig (para todos os gostos...) do assunto, mas não sei sequer se as quantidades disponíveis o permitem. Sei que é também produzido em Java e noutras ilhas da Indonésia. Talvez o Augusto Lança tenha alguma informação ou ideia sobre isto que possa partilhar.

 


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 25 Junho , 2009, 02:28

Oriane, duquesa de Guermantes, representa uma das mais marcantes figuras da nobreza francesa do princípio do século XX. Descendente de Geneviève de Brabant, a sua linhagem remontava ao início da nacionalidade e integrava-a no mais exclusivo escalão da aristocracia francesa. Educada pela sua tia, a marquesa de Villeparisis, uma mulher com uma inteligência e uma cultura notáveis, juntamente com o seu primo Palamède, barão de Charlus, recebeu uma instrução esmerada. Casou com o seu primo Basin, para apurar a linhagem e poder assinar Guermantes e Guermantes (superiorizando-se assim aos príncipes de Guermantes). Contudo, não tiveram filhos. A sua beleza luminosa, a sua rigorosa elegância, a vivacidade da sua inteligência, fascinaram um grande número dos seus contemporâneos e conferiram a primazia absoluta ao seu salão no Faubourg Saint-Germain.

 

Porém, a sua personalidade revelava alguns traços menos agradáveis: superficialidade misturada com um profundo convencionalismo e conservadorismo, convictamente anti-dreyfusista, e uma desagradável mesquinhez e mesmo crueldade, revelada logo na forma como gostava de atormentar os criados. Pode ser vista, em parte, como uma vítima do seu sanguíneo marido, o duque, que impunha a presença no seu salão de um cortejo de amantes (todas da melhor sociedade, é claro). A sua decadência será severa, mostrando-se irreconhecível, tal como o seu slão, não muito anosdepois do apogeu.

 

Os modelos para a personagem terão sido vários:  Henriette de Montesquieu, marquesa de Eyragues, Laura, condessa de Chevigné, Elisabeth, condessa Greffulhe, Herminie, duquesa de Rohan e Madame Straus.

 

A sua figura e a sua personalidade (e as do duque) são magistralmente ilustradas na famosa cena dos sapatos vermelhos. Basin e Orianne têm um importante jantar, mas há um parente, nem muito próximo nem muito afastado, o marquês de Osmond, que está às portas da morte; se morrer, os Guermantes não poderão ir ao jantar. O duque manda o criado saber novas do moribundo, e quando aquele regressa dizendo que o doente está por um fio, o duque quase que lhe bate, e afiança a quem o pode ouvir que o marquês de Osmond em breve andará pelo seu pé. Nisto chegam a casa dos Guermantes o narrador , novo amigo da duquesa, e Charles Swann, homem mundano e esteta, e, embora judeu, velho e querido amigo da duquesa (e do príncipe de Gales):

 

"(...) Não diz se vem a Itália conosco?

- Acho que não será possível, minha senhora.

- Pois é, a senhora de Montmorency tem mais sorte. Esteve com ela em Veneza e em Vicenza. Disse-me ela que consigo se viam coisas que de outro modo nunca se veriam, de que nunca ninguém falou, que você lhe mostrou coisas inauditas, e que, até nas coisas conhecidas, conseguiu compreender pormenores diante dos quais, se não fosse você, teria passado vinte vezes sem nunca reparar. Não há dúvida de que foi mais favorecida que nós. Pegue no imenso sobrescrito das fotografias do senhor Swann - disse ela ao criado - e vá entregá-lo da minha parte, de canto dobrado, esta noite às dez e meia, em casa da senhora condessa Molé.

Swann desatou a rir.

- No entanto, gostava de saber - perguntou-lhe a senhora de Guermantes - como é que, com dez meses de antecedência, pode saber que será impossível?

- Minha cara duquesa, eu digo-lhe se faz muita questão nisso, mas, antes de mais nada, está a ver que não estou nada bem de saúde.

- É, é, Charles, meu anjo, eu acho que você não está com boa cara, não estou nada contente com a sua cor, mas não lhe peço aquilo para daqui a oito dias, peço-lhe para daqui a dez meses. Em dez meses bem sabe que há tempo para se tratar.

Nesse momento chegou um criado a anunciar que a carruagem estava pronta. «Vamos, Oriane, a cavalo», disse o duque, que já se agitava de impaciência, como se também ele fosse um dos cavalos que esperavam.

- Bem, numa palavra, que razão o há-de impedir de vir a Itália?

- Oh, minha cara amiga, é que nessa altura já terei morrido muitos meses antes. Segundo os médicos que consultei, no fim do ano o mal de que sofro, e que aliás me pode levar já, não me dará, em qualquer caso, mais de três ou quatro meses de vida, e isso já é o máximo dos máximos - respondeu Swann a sorrir, enquanto o criado abria a porta envidraçada do vestíbulo para deixar passar a duquesa.

- Que está para aí a dizer? - exclamou a duquesa detendo-se por um segundo no seu caminho para a carruagem e erguendo os seus belos olhos azuis e melancólicos, mas cheios de incerteza. Colocada pela primeira vez na sua vida entre dois deveres tão diferentes como subir para a carruagem para ir jantar fora e mostrar compaixão por um homem que vai morrer, nada via no seu código de conveniências que indicasse a jurisprudência a seguir, e não sabendo a qual das duas alternativas  havia de dar preferência, julgou-se no dever de fingir que não acreditava que a segunda se pudesse pôr, de modo a obedecer à primeira, que naquele momento exigia menos esforços, e pensou que a melhor maneira de resolver o conflito era negá-lo. - Quer brincar? - disse ela a Swann.

- Seria uma brincadeira de encantador bom gosto - respondeu ironicamente Swann. - Não sei porque lhe digo isto, não lhe tinha falado da minha doença até agora. Mas perguntou-mo, e como posso morrer de um dia para o outro... Mas sobretudo não quero que se atrase, vai jantar fora - acrescentou, porque sabia que para os outros as obrigações mundanas estão acima da morte, e punha-se no lugar deles graças à sua delicadeza. Mas a da duquesa permitia-lhe também entrever confusamente que o jantar a que ia devia contar menos para Swann do que a sua morte. Por isso, sem deixar de se encaminhar para a carruagem, encolheu os ombros dizendo: «Não se preocupe com esse jantar. Não tem qualquer importância!» Mas estas palavras despertaram o mau humor do duque, que exclamou: «Vá lá, Oriane, não fique para aí a tagarelar e a trocar as suas jeremiadas com Swann, pois bem sabe que a senhora de Saint-Euverte faz questão de ir para a mesa às oito em ponto. Temos de saber o que quer, olhe que há uns bons cinco minutos que os seus cavalos estão à espera. Eu peço-lhe desculpa, Charles», disse virando-se para Swann, «mas são oito menos dez. A Oriane está sempre atrasada, vamos levar mais de cinco minutos até casa da vellha Saint-Euvert.»

A senhora de Guermantes avançou decididamente para a carruagem e tornou a dizer um último adeus a Swann. «Havemos de falar disso, mas olhe que não acredito numa palavra do que diz, temos de falar do assunto. Devem tê-lo assustado estupidamente, venha almoçar cá, no dia em que quiser (para a senhora de Guermantes tudo se resolvia sempre em almoços), dir-me-á o dia e a hora que escolher»; e, erguendo a saia encarnada poisou o pé no estribo. Ia a entrar na carruagem, quando, ao ver aquele pé, o duque exclamou numa voz terrível: «Oriane, que vai você fazer, infeliz? Ficou com os sapatos pretos! Com uma toilette encarnada! Suba depressa para calçar os sapatos encarnados, ou então (disse para o criado), vá já dizer à criada de quarto da senhora duquesa que traga uns sapatos encarnados.»

- Mas, meu querido - respondeu docemente a duquesa, incomodada por ver que Swann tinha ouvido tudo, pois ia a sair comigo mas quisera deixar passar a carruagem -, como estamos atrasados...

- Nada disso, temos todo o tempo. Ainda faltam dez minutos, não levamos dez minutos até ao Parque Monceau. E, além disso, enfim, que quer, mesmo que fossem oito e meia eles esperavam, mas não pode ir com um vestido encarnado e sapatos pretos. Para mais, não seremos os últimos, pois há os Sassenage, sabe que esses nunca chegam antes das nove menos vinte.

A duquesa tornou a subir ao quarto.

- Pois é - disse-nos o senhor de Guermantes -, pobres maridos, fazem pouco deles, mas apesar de tudo têm coisas boas. Se não fosse eu, a Oriane ia ao jantar de sapatos pretos.

- Não era feio - disse Swann. - Eu tinha reparado nos sapatos pretos, e não me chocaram nada.

- Não digo que não - respondeu o duque - mas é mais elegante serem da mesma cor do vestido. E, além disso, descanse, que ela, mal chegasse, daria pela coisa e eu é que seria obrigado a vir buscar os sapatos. Acabaria por jantar às nove horas. Adeus, meninos - disse ele afastando-nos brandamente -, vão-se embora antes que a Oriane desça. Não que ela não goste de os ver a ambos. Pelo contrário, é porque ela gosta de mais de os ver. Se os encontra ainda aqui, recomeça a falar, e já está muito cansada, chega ao jantar morta. Além disso, confesso-lhes francamente que estou a morrer de fome. Almocei muito mal esta manhã depois da viagem de comboio. Havia um maldito molho bearnês, mas apesar disso não me importava nada, mesmo nada, de ir para a mesa. Oito menos cinco! Ah, as mulheres! Vamos ficar com dores de estômago os dois. Ela é bem menos sólida do que se julga.

Ao duque não lhe custava nada falar dos incómodos da mulher e dos dele a um moribundo, porque esses, como o interessavam mais, lhe pareciam mais importantes. Por isso, foi apenas por boa educação e espírito galhofeiro que, depois de amavelmente nos mandar embora, gritou da porta a Swann, que estava já no pátio, em voz de estentor:

- E você não se deixe impressionar por essas tolices dos médicos, que diabo! Eles são uns burros. Você está tão bem de saúde como o Ponte-Neuf. Há-de enterrar-nos a todos!" (Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, Vol. III - O lado de Guermantes (trad. Pedro Tamen), pp. 595-598.


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 20 Junho , 2009, 17:48

A PSP levou a cabo uma grande operação policial em cerca de cem cidades (fico sempre surpreso quando vejo que temos tantas) para "aumentar o sentimento de segurança da população." Ao menos as relações públicas da PSP são honestas: o que está em causa é uma questão simbólica, de aparências, de influenciar o estado de espírito da opinião pública (ou da população), e não qualquer desiderato operacional concreto. Dá vontade de perguntar se a actuação policial do dia-a-dia não devia ser suficiente para assegurar o sentimento de segurança da população, e que benefícios efectivos espera o Comando da PSP obter relativamente aos meios utilizados. É uma grande festa policial, como os Dias da Música no CCB são uma grande festa musical. Não haverá uma forma mais profissional de fazer estas coisas?


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 13 Junho , 2009, 22:42

Outro poeta da Geração de 50. O poeta. Francisco Brines  nasce em 1924 em Oliva, na província de Valência. A sua poesia é complexa, densa e intensamente elegíaca (segundo alguns, demasiado). Os temas são os do costume: o tempo, a morte e, mais distante, um reflexo do amor. Cinzas. O seu livro mais belo é o «El Otõno de las Rosas» (1984). Há uma antologia dos seus poemas em português, muito completa, organizada e traduzida por José Bento. É de lá que retiro esta poema:

 

DE BASSAI E O MAR DE OLIVA

 

Era naquela viagem pelas terras adormecidas da Arcádia,

para encontrar o templo onde florescera o primeiro sorriso de capitel de acantos

(ou de rosas),

ali onde a ausência adusta do cestinho era um canto de fogo e de cigarras.

As colunas de pedra sustinham o pássaro e o céu.

Os pássaros azuis, o céu desmoronado.

O féretro estival do tempo destruído. E tudo se perdia e era eterno.

Em teus olhos eu olhava o mundo que era estável, muito velho, e tu sonhavas só

como a juventude.

 

E antes vi o mar, nas horas solitárias da sesta,

quando o sol enlouquece sua extensa superfície, e brilha no ar de ouro suspenso

essa frescura eterna que faz deuses meninos os olhos do que olha,

quando chegam velozes e pausadas as velas distantíssimas,

e só existe o mar, o corpo de uma glória azul e inacabável,

e aquele que o contempla com olhos escondidos e o olhar ardente:

o rapaz, com um secreto amor também inacabável

de si mesmo,

porque o mundo e a vida se hospedam nele apenas.

E ninguém havia ainda que o suplantasse, nem tua humana formosura.

 

O mar está aí, mas não o olhar e as velas,

e o templo, com as suas portas fechadas, é triste e católico.

Alguém me deu um abraço de adeus definitivo num cais muito acre

e busco nos espelhos, e arranho e não encontro

esse que fui e que de mim morreu e é minha inexistência.

Sinto-o mais estranho que a mim mesmo

quando, enfim já cego, anseie conhecer-me e o vazio seja tudo,

e isto assim porque avisto um breve resto de sua luz ainda.

 

Sei que cheirei um jasmim uma tarde na infância e não existiu a tarde.

 


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 09 Junho , 2009, 22:47

Uma opinião frontal (e coerente) sobre a abstenção, no Jugular. Não a subscrevo inteiramente. Estacionar em segunda fila é mais grave que não votar. Estacionar em segunda fila é ilícito, a renúncia ao exercício do voto não é. O dever de voto de que a Constituição fala é um dever cívico, não é um dever jurídico. O voto é um direito que pode ser exercido ou não. A reprovação do não exercício do voto coloca-se no plano ético, moral; e compreende-se que assim seja, pois não põe em causa os direitos dos outros (de cada um dos outros), nem provoca um transtorno comum tão grave que justifique a sua transformação em crime ou contra-ordenação (como acontece com o estacionamento em segunda fila). Mas é um comportamento que não tem nada de louvável nem é digno de admiração; não pode ser caracterizado como um «direito à desobediência civil», pois deve-se geralmente a desinteresse ou preguiça. Pode quando muito ser desculpável em certas circunstâncias. 


publicado por nobilissimavisione | Domingo, 07 Junho , 2009, 17:26

Parece que nem o patrono deste blogue, S. Francisco de Assis, poderá valer a Gordon Brown. Será que o fim está próximo? Para hoje esperam-se novos desenvolvimentos, com uma previsível hecatombe nas eleições europeias. E estes apelos dúbios à unidade - vs. e-mails privados -, vindos de quem vêm, não serão grande ajuda, antes pelo contrário. Quem se seguirá? Alan Jonhson? Ed Balls?


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 05 Junho , 2009, 20:07

A lenta e sangrenta desagregação do Estado na Guiné-Bissau deixa um sabor muito amargo na boca de todos os que deram pela existência daquele país antes de a dúbia distinção de ser considerado um narco-Estado o ter catapultado para os noticiários internacionais. Estive lá duas vezes, em 1994 e em 2007, e o que vi foi uma regressão das condições de vida e uma degradação acentuada das infra-estruturas durante aquele período. As razões para o desastre não são muito claras, talvez porque são muitas, e se quisermos podemos ir buscá-las ao período da colonização, logo na fixação das fronteiras de um território diminuto e pouco viável, em que se trocou Ziguinchor e grande parte da região de Casamansa pela quimera do mapa cor-de-rosa, até à ausência de qualquer investimento relevante na economia ou na educação durante a fase final da colonização. Os erros cometidos após 1973 - e na própria luta pela independência, apesar da liderança notável de Amílcar Cabral - também foram muitos. Actualmente, há muito por onde escolher: o tribalismo e a luta pelo poder entre os balantas e os papéis, a corrosão e captura do Estado pelos traficantes de droga, uma economia anémica e sem perspectivas, que não conseguiu diversificar-se a partir da monocultura do amendoim. Se as causas do desastre são muitas, as perspectivas de saída são poucas; parece-me necessário um enquadramento internacional, mas qual? A OUA não parece interessada nem conseguir reunir os meios para se envolver noutro conflito de difícil resolução, tal como a ONU. Não conheço os Estatutos da CPLP, mas julgo que não tem um figurino apropriado para este tipo de intervenção, mesmo que ela lhe fosse admitida. As intervenções dos vizinhos, Senegal e Guiné-Conacri, no passado deixaram muito más recordações em todos. E qualquer uma destas soluções teria como consequência a suspensão ou, pelo menos, pela diminuição da soberania da Guiné-Bissau. A realidade encarregou-se de desmentir as palavras esperançosas e emotivas de René Pelissier: "Não esqueçamos jamais que, de todos os países da África ocidental, a Guiné é o único a ter-se sangrado para se libertar do molde colonial. O preço que os seus homens pagaram para caminhar sozinhos foi tão elevado, senão mais, do que aquele que os seus ancestrais tiveram de pagar no nascimento. E agora trata-se para eles de crescer a direito, como uma árvore forte e dura, rumo ao céu" (História da Guiné, II, p. 276).


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 05 Junho , 2009, 19:22

A da liderança trabalhista e, por arrasto, a do Governo britânico. No sistema  britânico estas coisas costumam ser mais rápidas e envolver menos estardalhaço, como quando a Sr.ª Tatcher foi sumariamente despedida - com uma certa dose de ingratidão - no início dos anos 90. Só que esta altura é péssima para a mudança de liderança trabalhista, com eleições no máximo dentro de um ano. Gordon Brown é o John Major dos trabalhistas neste contexto, mas não dispõe já de tempo suficiente para inverter as coisas. Acho mesmo estranho que os MP do Labour - por e-mail ou por outra forma qualquer - não tenham já despachado o Sr. Brown. Será um sinal da desparlamentarização do sistema político britânico?

 


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 04 Junho , 2009, 19:33

Se o poeta Jaime Gil de Biedma fosse vivo completaria 80 anos no dia 13 de Novembro. Morreu em 1990, nada tendo publicado desde 1982, abandonando deliberadamente a poesia nos seus últimos anos. Como muitos outros grandes poetas (Francisco Brines, Ruy Belo), estudou Direito. A sua vida movimentada, entre Nava de la Asunción (Segovia), Barcelona e Manila, está em parte recriada no volume autobiográfico "Retrato do Artista em 1956" publicado postumamente (ed. portuguesa da Relógio de Água de 2002). Integrado no grupo de poetas conhecido como "geração de 50", a sua poesia profundamente pessimista e atormemtada é porém mais distendida, mais irónica - por vezes, o poeta vê-se a si mesmo com algum distanciamento - do que a de outros poetas daquele grupo,  mas não é menos intensa. O papel da memória e da infância na sua poesia estão bem presentes no poema "Ribeira dos Amieiros", publicado em 1966 (aqui na tradução de José Bento):

 

São mais velhos os pinheiros

Pelo carreiro abaixo,

sujas de areia e roçadelas,

como os meus joelhos em menino,

espreitam as raízes.

E lá ao fundo o rio entre os álamos

completa como sempre esta paisagem

a que no mundo quero,

enquanto sua lembrança me devolve

entre as primeiras de toda a minha vida.

 

Um pequeno recanto no mapa de Espanha

que sei de cor, porque foi o meu reino.

Poderia imaginar

que o tempo não passou,

como aos seis anos, nessa idade

em que o dormir é o descanso verdadeiro,

com os olhos fechados

e acordado na cama, nas manhãs de inverno,

imaginava um dia do verão anterior.

Com o olor profundo dos pinheiros.

Mas estão estas mudanças tão pouco perceptíveis

nas raízes, ou no próprio carreiro,

que me forçam às vezes a desfazer o andado.

Estão estas lembranças, que não servem senão

para morrer comigo.

 

Pelo menos a vida no colégio

era um indício do que é a vida.

E contudo, são estas imagens

- uma noite a cavalo, o nascimento

terrivelmente impuro da lua,

ou a visão do rio a aparecer

há muitos anos já, num mês de setembro,

a exaltação e o medo de estar só

quando vai entardecer -,

antes de nenhumas outras,

as que voltam e têm um sentido

que não sei bem qual é.

A intensidade

de uma súbita labareda, porventura somente,

e também uma antiga inclinação humana

para confundir beleza e significação.

 

Imagens formosas de uma história

que não é toda a história.

Demasiado me lembro dos meses de outubro,

dos regressos a casa já de noite, a cantar,

com o vento do outono a cortar-nos os lábios,

e da excitação na sala de cima

junto à lareira acesa, quando eram familiares

o ritmo da casa e o das estações,

a doçura de uma ordem artificiosa e rústica,

como as personagens

no papel da parede.

 

Um sonho dos adultos, tudo aquilo.

Sonho da sua nostalgia de outra vida mais nobre,

de outra idade a exaltá-los

para uma eternidade de valiosas quintas,

para além do seu medo de morrer sozinhos.

Assim fui, desde criança, habituado

ao exercício da irrealidade,

e ainda, na melancolia

que me resta de então,

há um rancor de consciência enganada,

ressentimento demasiado vivo

que nem o silêncio e a solidão acalmam,

embora talvez também alguma coisa mais funda

tragam ao coração.

Como o latejo

dos pinhais, ao parar o vento,

que se preparam para escurecer.

 

Alguma coisa que já não é quase sentimento,

uma disposição de afinidade profunda

com a natureza e com os homens,

que até a ideia de morrer parece

bela e tranquila. Tal como este lugar.

 


mais sobre mim
Junho 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12

14
15
16
17
18
19

21
22
23
24
26
27

29


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO
subscrever feeds