publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 22:34

É difícil descrever Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño. A inventividade do fio condutor da trama (horrível palavra!) é excepcional: a busca da história e do paradeiro de Cesárea Tinajero, a única e misteriosa verdadeira representante de uma obscura corrente poética mexicana, o real visceralismo, cujos poemas - pelo menos os que são citados - não têm palavras. Na primeira parte do livro, o ímpeto da narrativa quase que toma o freio nos dentes (como nalgumas partes dos livros de Durrell); a escrita é dura, de um erotismo violento e sombrio, cujo ritmo é parcialmente retomado na parte final do romance (que repega a história no ponto em que a primeira parte a tinha deixado). A parte intermédia, a várias vozes, que narra incidentalmente os acontecimentos posteriores, é desigual; há partes muito belas, como a de Edith Oster no México e na Califórnia, de uma tristeza profunda e decantada que lembra a Estrela distante, ou a do tipo que adivinhava os números em Barcelona, mas a parte que se passa em Israel é quase intragável. As personagens secundárias são as mais interessantes. A leitura é por vezes difícil, e confusa; parece que o Autor se diverte a provocar-nos e a baralhar-nos. No fim de tudo: Grande livro? Obra falhada? Grande livro. Talvez. Não, sem dúvida que sim.

 

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publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 22:31

Adopção por casais homossexuais? Sim, mas só de crianças homossexuais.


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 22:19

Praia da Carrusca

Praia da Carrusca

 

No Verão tenho sempre vontade de fazer listas. Não sei porquê. Julgo que nas capas de jornais e revistas esse fenómeno estival tem alguma expressão, ligada às férias (listas de destinos de férias, de livros para férias). Resolvi ceder a essa vontade e fazer uma lista das praias da minha vida (por enquanto...). São doze, para caberem todas.

 

1. Praia do Guincho;

2. Praia de S. Jacinto;

3. Praia do Monte Velho (entre Sines e Melides);

4. Praia do Meco;

5. Praia da Fábrica (em frente a Cacela Velha);

6. Praia do Barril (Tavira);

7. Praia da Ilha de Maio (Bijagós);

8. Praia de Chave (Boavista);

9. Praia da Pitiinga (Arraial da Ajuda);

10. Praia da Carrusca (a norte da Ilha de Moçambique);

11. Praia de Ataúro (a sul do cais onde atraca o ferry);

12. Praia do Ilhéu de Jaco (Timor-Leste).

 

De foram ficam as praias literárias - de momento só me ocorrem duas: Balbec (Proust) e Figueira da Foz (Sena).

 

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publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 21:31

Eloy Sánchez Rosillo nasceu em Múrcia, em 1948. É mais um discípulo de Cernuda (doutorou-se, aliás, com uma tese sobre este poeta). É o mais incisivo no olhar sobre o efeito corrosivo do tempo. O momento presente é uma ruína de vários passados, uns mais distantes, outros quase prospectivos, e em diferentes estados de conservação ou de gestação. Há uma urgência na sua poesia que lhe imprime um ritmo menos contemplativo do que o de Brines, sem prejudicar a serenidade da aceitação do fluir da vida. O poema que aqui transcrevo vêm do livro La Vida (1989-1995), e está publicado em português na antologia "As coisas como foram". O seu objecto é mais amplo do que a ilustração da memória poética da infância - outros poemas deste Autor seriam porventura mais adequados -, mas é o meu preferido. A tradução é, mais uma vez, de José Bento.

 

DAQUI

 

Esta estranha ladeira pela qual vou descendo

corre entre a névoa. Já não me lembro ao certo

se houve sol matinal quando eu subia,

ou se era aquele cimo onde estive depois

o próprio centro da luz. Agora

dou passos com cuidado; tudo aqui é confuso.

No tempo me perdi. Avanço e retrocedo

e não consigo agarrar as formas puras

do existir em que me apoiava

quando o mundo era firme e as coisas tinham

princípio e fim, definição, contornos.

Não há ontem, nem presente, nem amanhã.

Em que lugar do tempo se vai estendendo

a bruma que me envolve? O antes é depois,

o que passou não foi, o que ainda

há-de vir talvez esteja a acontecer.

Quem sou? Quem dentro de mim me desconhece?

Fui um menino um dia, ou inventei uma história

que me ajudasse a viver nos maus momentos?

Entrevejo ao longe um verão

que não teve começo e não termina

(é sempre verão quando relembro

na escuridão a luz primeira):

uma casa no campo; estou a brincar junto

à acácia que sombreia a porta;

minha mãe costura ou lê perto de mim e olha-me

com os olhos mais doces e mais límpidos

que desde sempre vi. E de súbito não existem

aquela casa branca, a vinha, as amendoeiras,

as galeras carregadas com sacos de trigo

sob o fulgor de agosto e minha mãe já não está

a olhar-me. Um rapaz escreve num caderno

seus primeiros poemas; é de noite; a lua

entra pela janela do seu quarto;

olhai-o a trabalhar: que emoção no seu peito,

como em suas mãos arde a vida que tanto gostaria

de exprimir no papel. Mas vai chegando

à cidade a aurora pouco a pouco

e o quarto que antes vimos está ermo;

parece que jamais terá estado

neste quarto aquele adolescente

que na noite escrevia. Uma jovem passa

perto de mim e pára; estão cheios de ilusão

seus olhos muito azuis, o seu sorriso. Começamos

a andar por um caminho. A que sítio nos leva?

De súbito, decorrem muitos anos.

Onde surge o amor? Quando se extingue?

Um menino está sentado no tapete; brinca

com seus brinquedos; grita e bate palmas

ao contemplar o inúmero exército

de ferozes bonecos que dispôs

diante de si em rigorosa formação de batalha.

E eu assisto ao milagre da sua infãncia; rimo-nos

com o riso mais aberto e, abraçados,

filho e pai rolamos pelo chão

enquanto corre lenta, lentamente,

uma manhã de primavera.

Mas num só instante a noite fechou-se;

crescem as sombras, e é inverno e chove,

e não há ninguém em minha casa. O que houve?

Que é daquele menino que com o riso

me unia a uma verdade tão verdadeira?

E que é feito de mim, das tão seguras

convicções que me sustinham?

Habita-me um estranho. Nos espelhos eu vejo

o olhar perplexo, interrogante,

de um rosto alheio, de alguém que em nada se parece

ao que fui alguma vez. Não sei se estou a sonhar,

não sei se estou acordado, se imagino ou recordo.

Talvez sonhemos sempre. Eu vivo na incerteza.

No tempo me perdi. Caminho pela névoa,

desço às apalpadelas a ladeira insegura.

Tudo se passa agora depressa, bem depressa;

imagens, acontecimentos, enteléquias,

apagam-se, iluminam-se, vão e vêm.

O que é antes? O que é depois? Quem entrelaça,

ordena e desordena as minhas horas?

A realidade e o sonho e a memória,

onde começam e acabam?


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