publicado por nobilissimavisione | Sábado, 29 Agosto , 2009, 20:11

As gentes do futebol parecem acreditar viver num mundo à parte, onde não se aplicam as leis e todos os comportamentos que a força consiga impor são admissíveis. E isso verifica-se em tudo, desde os comportamentos criminosos dos adeptos dentro e fora dos estádios até à forma demencial como se estaciona ao pé daqueles em dias de jogo, sob a atenta benevolência das autoridades, passando pelos casos graves de corrupção de árbitros e dirigentes desportivos. Explica-se porque é que os antropólogos dedicam tanto interesse ao fenómeno.


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 25 Agosto , 2009, 15:07

BICHOS, CÉU E MORTE

 

Que teixugos perdi na minha infância

 

que tordoveias que foram

horas felizes que depois voaram

e que andorinhas

que nem bem poisavam nos fios

as estonteantes

 

que passo miúdo sempre em fuga

das codornizes pela vinha

 

e que sei eu ainda

que ninhos de caçapos que leveza

de pêlo fofo entre maçãs

meio podres caídas num caminho

que vinha do Mirante

descendo quase a pique para a estrada

 

que tiros secos de caçadores

nas ínsuas que arruído

ao voo das perdizes de asa tenra

que logo uma levava a sua carga

de chumbo e se atrasava e tonta

se enredava no restolho

que eu apartei um dia à mão

para vê-la morrer indecifrável

 

e que brandos

que ventos brandos lentos

meneando os ramos das carvalheiras

que torpor de medo à noite

à hora das estrelas que me lembro

delas a atravessarem o céu

diz-se riscar o céu e é verdade

que o fazem com as unhas

talvez os próprios anjos luminosas

 

que dor pré-cordial que miserável

saudade se me entorna em tudo isto

que bem feitas as contas

não é nada de nada na saca do mundo

que não é senão

um que nem se palpa

na peneira do mundo

 

Variações em Sousa, 1987


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 25 Agosto , 2009, 13:02

Não, não enlouqueci ao escolher um título deste tamanho. É que o tema é complexo (embora o post vá ser breve). À primeira vista, a argumentação utilizada pelo Presidente da República para justificar o mérito do veto da alteração da lei sobre as uniões de facto parece fazer sentido. Haveria uma escolha, por parte de quem vive em comunhão com outra pessoa e não se casa, que o Estado deveria respeitar. Equiparar a união de facto ao casamento significaria no fundo um casamento forçado, contrário à vontade dos envolvidos. Trata-se, no entanto, de uma visão muito formal e mesmo um pouco hipócrita da questão. Qualquer um de nós sabe que, em muitos casos - embora hoje em dia isso aconteça menos -, e como bem se explica no Mar Salgado, a união de facto não resulta em casamento por vontade apenas de um dos envolvidos. Poderia dizer-se: muito bem, se isso não é aceitável para quem quer casar, pode sempre terminar a união de facto. Não é assim tão simples: razões prosaicas, de dependência económica, ou relativas aos filhos comuns, ou mesmo de dependência afectiva (vulgo amor) implicam uma escolha pela manutenção da união de facto, aceitando uma dos envolvidos, mais ou menos contrafeito, a decisão do outro de não formalizar a união através de casamento. Será isto legítimo? Será aceitável uma situação familiar em que um dos envolvidos retira apenas as vantagens que lhe interessam e não se submete aos deveres correlativos, mesmo com o consentimento da outra parte? Uma situação em termos materiais em tudo semelhante ao casamento, com o investimento e a disponibilidade pessoal que isso implica, sem a correspondente protecção? A questão é complexa, como já disse, mas alguns dos efeitos do casamento devem ser assacados à união de facto, sob pena de se proporcionar o surgimento ou a manutenção de situações injustas ou indignas. Se está em causa o respeito pela vontade dos envolvidos, este respeito deve compreender a vontade de ambos; e isso não parece muito difícil: a lei que fixar os efeitos da união de facto, similares aos do casamento, permitirá certamente aos envolvidos dispensá-los, se não quiserem usufruir dos respectivcos benefícios. Por exemplo, se houvesse equiparação em termos sucessórios (coisa que a alteração legislativa nem sequer previa!), quem sobreviver, sendo herdeiro, pode renunciar à sua parte na herança. Ah, mas há quem esteja em união de facto que não quer que o seu companheiro/companheira (não me ocorre outro termo melhor) seja seu herdeiro (legitimário). Aí paciência: quem não quer o que deve resultar de uma comunhão de vida não se envolva numa, recorra à castidade, a relações fortuitas, ao que puder. Também em alguns casamentos um dos dois provavelmente preferia não ter o outro como herdeiro (há pessoas muito temerosas quanto à sua segurança!), mas de duas uma: ou aceita os efeitos do casamento, mesmo aqueles que não lhe interessam ou com os quais não concorda, ou sai daquela situação, divorciando-se. E para um post supostamente breve já chega.


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 21 Agosto , 2009, 02:10

Vale a pena ir à Bússola Eleitoral. Até para podermos ver que o nosso (des)norte aparece em sítios que não nos passariam pela cabeça!


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 13 Agosto , 2009, 18:29

São indiscutivelmente boas notícias para o País e para o Governo, ainda que a sua relevância económica possa ser reduzida ou se venha a verificar ter sido um mero efeito conjuntural (não sou economista, fico-me por aqui quanto a este aspecto). O efeito psicológico pode, todavia, ser importante. A campanha eleitoral está morna, e não tem corrido muito bem ao PS (nem ao PSD). Se outros sinais de sentido semelhante se juntarem a este, poderá significar uma viragem nas intenções do eleitorado moderado (aquele que realmente vai decidir o primeiro lugar), e um «turning point» semelhante - ressalvadas as devidas distâncias - ao que ocorreu na campanha das presidenciais americanas, quando a crise dos mercados financeiros afundou definitivamente as hipóteses de John McCain, que até aí tinha vindo a crescer, dando a impressão de poder verdadeiramente disputar a Presidência a Obama?


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 13 Agosto , 2009, 18:17

"Acho que o Senhor Presidente da República está a usar uma duplicidade de critérios" declarou à Agência Lusa Marinho Pinto, frisando que Cavaco Silva "só está a questionar a constitucionalidade de uma norma que favorece os reclusos". Depois da cena de pugilato verbal com Manuela Moura Guedes, o próximo «round» deverá ser com o Presidente da República. Quais serão as outras normas do Código de Execução de Penas que na opinião do Bastonário violam os direitos fundamentais dos reclusos por não estarem dependentes de decisão do juiz? E acha que são mesmo inconstitucionais ou não concorda apenas com o seu teor? Porque é que não concretiza? Ou é tudo apenas uma questão de show-off mediático? E será uma opinião pessoal ou traduz aquilo que pensa a maioria dos advogados? Quando e como terminará o mandato deste Bastonário?


publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 10 Agosto , 2009, 22:25

1. Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust;

2. O Mar da fertilidade, de Yukio Mishima;

3. Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell;

4. Quinteto de Avinhão, de Lawrence Durrell;

5. Trilogia do Cairo, de Naguib Mafhouz;

6. Um bom partido, de Vikram Seth;

7. Quarteto de Buru, de Pramoedya Ananta Toer;

8. Menino de Engenho + Banguê + Usina, de José Lins do Rego;

9. Corpo de baile, de João Guimarães Rosa (estas ainda não as li a todas);

10. Trilogia dos cafés, de Álvaro Guerra.


publicado por nobilissimavisione | Domingo, 09 Agosto , 2009, 23:26

"Laços afectivos com o poder local"? Pensava eu que seria evidente que as pessoas devem escolher os autarcas do local onde residem, como interessados directos no seu desempenho, e não os de qualquer outro sítio, por a isso se terem habituado, ou porque criaram os tais "laços afectivos com o poder local" - é impagável a luxúria concupiscente desta expressão! -, ou porque simplesmente lhes dá na telha. Mas pelo vistos não é assim tão evidente, pelo menos para os jornalistas do Público.

 


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 00:49

Passou quase despercebido o aniversário dos 50 anos do Massacre de Pidjiguiti. É o momento mítico fundador do nacionalismo guineense. A 3 de Agosto de 1959, os trabalhadores do Porto de Bissau começaram uma greve relativa à recusa de pagamento de um aumento de salário anteriormente estabelecido, que rapidamente resvalou para uma situação de violência. A repressão policial causou dezenas de mortos entre os trabalhadores, sendo cinquenta o número geralmente referido. Não é claro o que se passou exactamente; algumas fontes referem que uma das casas comerciais que utilizavam os serviços do porto se recusou a efectuar o aumento de salário anteriormente acordado. Há também quem reduza a questão a um ajuste de contas entre trabalhadores manjacos e polícias papéis, acrescido por  manobras de desinformação da PIDE (Carlos Fabião). Seguiu-se uma onde de prisões. Seja como for, e ainda que o PAIGC não tenha estado directamente envolvido nos acontecimentos, daqui resultou uma mudança da estratégia até aí seguida pelo movimento nacionalista: numa reunião secreta de 19 de Setembro de 1959, a liderança do partido decidiu mudar a sua actividade de protesto e agitação da cidade para o meio rural, transferir o secretariado para fora do país e preparar a libertação do país por todos os meios, incluindo a guerra (Patrick Chabal, Amilcar Cabral - Revolutionary Leadership and People's War, p. 57). A guerra começaria quatro anos depois. Das vítimas do Massacre de Pidjiguiti parece que já ninguem se lembra, pelo menos em Portugal. É mais um capítulo da cupidez humana e da exploração sempre presentes debaixo do manto do nosso colonialismo paternalista, com as suas trágicas consequências.

 


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 00:02

O JOGO DO CHINQUILHO

 

Renasce neste largo a minha infância

a minha vida tem aqui nova nascente

e jorra de repente com o ímpeto do início

O tempo não passou ou só a consciência

que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás

a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo

de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias

de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo

num espaço demarcado onde as coisas e os homens

eram tanto que eram simplesmente

só essa consciência e sensação me fazem suspeitar

de que passou o tempo que nunca passou

O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho

o ruído das malhas os paulitos

o sol poente sobre si redondo como simples

malha atirada por alguém pelo espaço do dia

e prestes a cair no mar como nas tábuas

o gesto perdulário e impensado de jogar

a malha como quem num gesto joga a vida

as silhuetas hirtas dos que assistem

de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos

tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos

como se aqui ninguém houvesse envelhecido

nem sofrido ou morrido ou suportado

toda a imensa fome requerida para produzir um rico

como se aqui ninguém tivesse demandado

longe de aqui o seu país noutros países

Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo

Até este café onde sentado olho e penso por olhar

é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai

a primeira cerveja uma cerveja vinda

através do calor do dia de verão

nesse cesto de vime nesse poço mergulhado

É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca

há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida

o sabor das mulheres das raparigas

inacessíveis sempre como um absoluto

sempre impossível tido no entanto por possível

o sabor da derrota ou o sabor da terra

sensível dia a dia nos meus dedos

e um dia susceptível de me encher a boca para sempre

Envelheci eu sei e só ganhei

o que perdi. Sou de uma adulta idade

E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou

e pelo céu do tempo houve um homem que passou

ou uma certa malha arremessada por acaso à vida

e viva na precária trajectória antes de caída

 

in TRANSPORTE NO TEMPO (1973)

 


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