publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 00:49

Passou quase despercebido o aniversário dos 50 anos do Massacre de Pidjiguiti. É o momento mítico fundador do nacionalismo guineense. A 3 de Agosto de 1959, os trabalhadores do Porto de Bissau começaram uma greve relativa à recusa de pagamento de um aumento de salário anteriormente estabelecido, que rapidamente resvalou para uma situação de violência. A repressão policial causou dezenas de mortos entre os trabalhadores, sendo cinquenta o número geralmente referido. Não é claro o que se passou exactamente; algumas fontes referem que uma das casas comerciais que utilizavam os serviços do porto se recusou a efectuar o aumento de salário anteriormente acordado. Há também quem reduza a questão a um ajuste de contas entre trabalhadores manjacos e polícias papéis, acrescido por  manobras de desinformação da PIDE (Carlos Fabião). Seguiu-se uma onde de prisões. Seja como for, e ainda que o PAIGC não tenha estado directamente envolvido nos acontecimentos, daqui resultou uma mudança da estratégia até aí seguida pelo movimento nacionalista: numa reunião secreta de 19 de Setembro de 1959, a liderança do partido decidiu mudar a sua actividade de protesto e agitação da cidade para o meio rural, transferir o secretariado para fora do país e preparar a libertação do país por todos os meios, incluindo a guerra (Patrick Chabal, Amilcar Cabral - Revolutionary Leadership and People's War, p. 57). A guerra começaria quatro anos depois. Das vítimas do Massacre de Pidjiguiti parece que já ninguem se lembra, pelo menos em Portugal. É mais um capítulo da cupidez humana e da exploração sempre presentes debaixo do manto do nosso colonialismo paternalista, com as suas trágicas consequências.

 


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 05 Agosto , 2009, 00:02

O JOGO DO CHINQUILHO

 

Renasce neste largo a minha infância

a minha vida tem aqui nova nascente

e jorra de repente com o ímpeto do início

O tempo não passou ou só a consciência

que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás

a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo

de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias

de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo

num espaço demarcado onde as coisas e os homens

eram tanto que eram simplesmente

só essa consciência e sensação me fazem suspeitar

de que passou o tempo que nunca passou

O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho

o ruído das malhas os paulitos

o sol poente sobre si redondo como simples

malha atirada por alguém pelo espaço do dia

e prestes a cair no mar como nas tábuas

o gesto perdulário e impensado de jogar

a malha como quem num gesto joga a vida

as silhuetas hirtas dos que assistem

de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos

tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos

como se aqui ninguém houvesse envelhecido

nem sofrido ou morrido ou suportado

toda a imensa fome requerida para produzir um rico

como se aqui ninguém tivesse demandado

longe de aqui o seu país noutros países

Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo

Até este café onde sentado olho e penso por olhar

é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai

a primeira cerveja uma cerveja vinda

através do calor do dia de verão

nesse cesto de vime nesse poço mergulhado

É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca

há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida

o sabor das mulheres das raparigas

inacessíveis sempre como um absoluto

sempre impossível tido no entanto por possível

o sabor da derrota ou o sabor da terra

sensível dia a dia nos meus dedos

e um dia susceptível de me encher a boca para sempre

Envelheci eu sei e só ganhei

o que perdi. Sou de uma adulta idade

E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou

e pelo céu do tempo houve um homem que passou

ou uma certa malha arremessada por acaso à vida

e viva na precária trajectória antes de caída

 

in TRANSPORTE NO TEMPO (1973)

 


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