publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 25 Agosto , 2009, 15:07

BICHOS, CÉU E MORTE

 

Que teixugos perdi na minha infância

 

que tordoveias que foram

horas felizes que depois voaram

e que andorinhas

que nem bem poisavam nos fios

as estonteantes

 

que passo miúdo sempre em fuga

das codornizes pela vinha

 

e que sei eu ainda

que ninhos de caçapos que leveza

de pêlo fofo entre maçãs

meio podres caídas num caminho

que vinha do Mirante

descendo quase a pique para a estrada

 

que tiros secos de caçadores

nas ínsuas que arruído

ao voo das perdizes de asa tenra

que logo uma levava a sua carga

de chumbo e se atrasava e tonta

se enredava no restolho

que eu apartei um dia à mão

para vê-la morrer indecifrável

 

e que brandos

que ventos brandos lentos

meneando os ramos das carvalheiras

que torpor de medo à noite

à hora das estrelas que me lembro

delas a atravessarem o céu

diz-se riscar o céu e é verdade

que o fazem com as unhas

talvez os próprios anjos luminosas

 

que dor pré-cordial que miserável

saudade se me entorna em tudo isto

que bem feitas as contas

não é nada de nada na saca do mundo

que não é senão

um que nem se palpa

na peneira do mundo

 

Variações em Sousa, 1987


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 25 Agosto , 2009, 13:02

Não, não enlouqueci ao escolher um título deste tamanho. É que o tema é complexo (embora o post vá ser breve). À primeira vista, a argumentação utilizada pelo Presidente da República para justificar o mérito do veto da alteração da lei sobre as uniões de facto parece fazer sentido. Haveria uma escolha, por parte de quem vive em comunhão com outra pessoa e não se casa, que o Estado deveria respeitar. Equiparar a união de facto ao casamento significaria no fundo um casamento forçado, contrário à vontade dos envolvidos. Trata-se, no entanto, de uma visão muito formal e mesmo um pouco hipócrita da questão. Qualquer um de nós sabe que, em muitos casos - embora hoje em dia isso aconteça menos -, e como bem se explica no Mar Salgado, a união de facto não resulta em casamento por vontade apenas de um dos envolvidos. Poderia dizer-se: muito bem, se isso não é aceitável para quem quer casar, pode sempre terminar a união de facto. Não é assim tão simples: razões prosaicas, de dependência económica, ou relativas aos filhos comuns, ou mesmo de dependência afectiva (vulgo amor) implicam uma escolha pela manutenção da união de facto, aceitando uma dos envolvidos, mais ou menos contrafeito, a decisão do outro de não formalizar a união através de casamento. Será isto legítimo? Será aceitável uma situação familiar em que um dos envolvidos retira apenas as vantagens que lhe interessam e não se submete aos deveres correlativos, mesmo com o consentimento da outra parte? Uma situação em termos materiais em tudo semelhante ao casamento, com o investimento e a disponibilidade pessoal que isso implica, sem a correspondente protecção? A questão é complexa, como já disse, mas alguns dos efeitos do casamento devem ser assacados à união de facto, sob pena de se proporcionar o surgimento ou a manutenção de situações injustas ou indignas. Se está em causa o respeito pela vontade dos envolvidos, este respeito deve compreender a vontade de ambos; e isso não parece muito difícil: a lei que fixar os efeitos da união de facto, similares aos do casamento, permitirá certamente aos envolvidos dispensá-los, se não quiserem usufruir dos respectivcos benefícios. Por exemplo, se houvesse equiparação em termos sucessórios (coisa que a alteração legislativa nem sequer previa!), quem sobreviver, sendo herdeiro, pode renunciar à sua parte na herança. Ah, mas há quem esteja em união de facto que não quer que o seu companheiro/companheira (não me ocorre outro termo melhor) seja seu herdeiro (legitimário). Aí paciência: quem não quer o que deve resultar de uma comunhão de vida não se envolva numa, recorra à castidade, a relações fortuitas, ao que puder. Também em alguns casamentos um dos dois provavelmente preferia não ter o outro como herdeiro (há pessoas muito temerosas quanto à sua segurança!), mas de duas uma: ou aceita os efeitos do casamento, mesmo aqueles que não lhe interessam ou com os quais não concorda, ou sai daquela situação, divorciando-se. E para um post supostamente breve já chega.


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