publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 30 Abril , 2010, 15:28
A importância do crocodilo nos mitos timorenses é por demais conhecida. Mas também os estrangeiros se deixam fascinar por este animal, e há quem faça do seu avistamento um dos objectivos da sua estadia aqui, organizando expedições à costa sul, onde existem em muito maior número. Bem, parece que agora deixou de ser preciso fazer grandes viagens. Sucedem-se os relatos de crocodilos avistados na praia da Areia Branca (a menos de 5 km), e mesmo nos limites de Díli, na ribeira que fica logo a seguir ao supermercado Lita. A coisa é de tal ordem que agora, antes de chegar à praia da Areia Branca, encontramos um sinal em forma de losango com a imagem de um crocodilo num fundo amarelo. Será um sinal de trânsito? E de perigo ou genéro indicação de atracção turística? Qual o departamento governamental que o mandou lá colocar? Não sei. Quando conseguir ponho aqui a fotografia. Entretanto já há quem tenha desistido de ir à praia, num onda spielberguiana tipo «Jaws». Mas o melhor é a explicação que já ouvi, repetida convictamente por mais do que uma pessoa, que a presença dos crocodilos se deve aos australianos, que os aqui colocam para tentar limitar as potencialidades turísticas (por enquanto remotas) desta «Riviera» timorense ...

publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 21 Abril , 2010, 03:39

 

Línguas de Timor 

 

www.fataluku.no.sapo.pt

 

1. Nas ruas de Díli, ouve-se falar o tétum - uma das duas línguas oficiais - e, por vezes, uma das línguas locais de Timor, que provavelmente será o mambae, predominante na zona montanhosa à volta da capital. Ouvem-se de vez em quando palavras em inglês, que os timorenses utilizam para se dirigir aos estrangeiros. Raramente se ouve falar português - a outra língua oficial. Em qualquer loja ou banca de mercado, a tentativa de falar em português não produzirá grandes resultados e raros são os motoristas de táxi com quem se consegue trocar mais do que duas ou três palavras nessa língua. Nos quatro anos que decorreram desde a minha primeira vinda a Timor-Leste, é visível o avanço na difusão do inglês; no português não noto grande diferença.

 

2. Montanha a sul de Maubara. Nevoeiro e tempo fresco, meia hora depois de se ter saído da estrada principal em Liquiçá e 1000 metros acima. Aproximam-se do carro algumas crianças. Saudadas em tétum, percebe-se que não o entendem. Só falam tocodede, a língua da região de Liquiçá. Aqui não é falada nenhuma das línguas oficiais, nem o português nem o tétum. Esta situação relativamente ao tétum seria menos surpreendente se se tratasse de pessoas mais velhas, mas são crianças em idade escolar.

 

3. Aula na Universidade Nacional. Pergunto aos presentes, quase todos falantes de mambae, qual a palavra nessa língua para lei. A questão gera alguma discussão entre os alunos – alguns são mesmo especialistas em questões linguísticas –, acabando por se concluir que não há uma palavra em mambae com correspondência suficiente e que a tradução mais aproximada será “ukun nor badu” (ordem e proibição, ligadas à vontade divina). A riqueza linguística de Timor constitui um património cultural valioso mas frágil; é manifesta a inadequação das línguas locais para a vida moderna.

 

4. Seja como for é espantosa, para um europeu, a variedade linguística existente em territórios circunscritos com uma população relativamente reduzida, como sucede na Guiné-Bissau e em Timor-Leste. Em Timor, há pelo menos uma vintena de línguas locais (não contando aqui com os dialectos): línguas malaico-polinésicas, por um lado – tétum praça, tétum téric, mambae, tocodede, quêmac, nauéti, galóli, ataúro, habo, idaté, lacalei, becais, baiqueno, uaimoa, cairui e mídic – e línguas papuas, por outro – fataluco, macassai, maclere e búnac. Tendencialmente, as línguas papuas são mais faladas na zona leste e as malaico-polinésicas na zona oeste, mas não sucede assim em todos os casos: o búnac, por exemplo, uma língua papua, é falado sobretudo em áreas de Covalima e de Bobonaro, junto à fronteira com a indonésia, e o tétum téric - bastante diferente da evolução que representa o tétum praça (=cidade) –, embora falado na zona de Covalima (Suai) e no Timor indonésio, junto à fronteira com Timor-Leste, é também a língua local da zona de Viqueque.

 

5. O título deste post é tomado de empréstimo (sem licença) ao título da colectânea de textos de Luís Filipe Thomaz (“Babel Loro Sa’e – O Problema Linguístico de Timor-Leste”, Coleccção Cadernos Camões, 2002), sendo o ponto 4 baseado nas informações contidas no último texto dessa colectânea, “A situação linguística em Timor em 1974”.


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