publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 28 Setembro , 2015, 23:56

Aos oitenta e muitos a minha bisavó teve inesperadamente um AVC que a deixou acamada e muito baralhada. Era uma mulher independente, que ainda vivia sozinha num pequeno apartamento no final da Pascoal de Melo. Veio para um lar relativamente perto de nós, onde durou, para surpresa dos menos versados nestas andanças, dado o estado em que lá chegara, quase seis anos. Eu estava perto dos 20, tinha tirado a carta há pouco tempo, e antes daquilo suceder, levava-a de volta a Lisboa ao domingos à noite no meu Fiat 126, depois de ela vir de comboio para o almoço; admirava-lhe a independência, uma certa dureza, o acerado sentido de humor, e sempre me senti bastante próximo dela; mas nesses seis anos fui vê-la, se tanto, duas dúzias de vezes; não reconhecia naquele corpo e naquele sorriso, naquele alheamento, a pessoa que ela era antes. A minha avó, que era a filha mais nova, foi vê-la todos os dias, todos, durante aqueles anos. Até que um dia, em Agosto, resolveu proporcionar-se a si própria a extravagância de uma excursão/cruzeiro do INATEL de 2 dias no Douro, com a minha outra avó. Chegou até à Bairrada, quando recebeu, no restaurante onde tinham parado para almoçar, um telefonema a dar a notícia da morte da mãe.

Lembrei-me desta história ao ver hoje o último episódio da Olive Kitteridge, onde aparecem duas variações sobre este tema. Parece que, quando alguém está a morrer, enfim, de forma relativamente lenta - vai morrendo -, precisa de esperar que quem dele cuida, quem está sempre presente, vire as costas por um instante, para conseguir terminar. Como se insuflássemos um sopro, ou segurássemos um fio que liga tenuamente alguém à vida, e seja necessário olhar para o lado por momentos, parar o sopro, largar o fio, para que essa pessoa possa finalmente morrer, se deixe ir.


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 12 Setembro , 2015, 23:43

 

E pronto, também eu, prestes a terminar História do novo nome, me confesso completamente rendido ao virtuosismo da escrita da misteriosa autora napolitana.

É uma saga feminista, com muito amor, desgosto, miséria e também alegria, muito à italiana, primeiro num ambiente neo-realista do pós-guerra, depois no fervilhar ideológico e cultural da 2.ª metade dos anos 60.

As personagens masculinas, com poucas excepções, são cruelmente desvendadas como timoratas, cúpidas, estúpidas, boçais, limitadas, egoístas, lúbricas, frágeis até na sua prepotência, brutalidade ou mesmo inteligência. Mas mesmo uma mente fulgurante, uma beleza assombrosa, uma coragem intrépida, uma determinação sem vacilações, podem ser insuficientes para permitir a uma rapariga escapar ao destino de submissão, subserviência e infelicidade que aquele ambiente machista e profundamente corrompido lhe reserva.

Ferrante expõe magistralmente a relação atribulada desde a infância, em tudo competitiva - nos feitos, nos afectos, nos desejos - entre duas amigas (uma delas genial, qual?), testando os limites da amizade.

Mas as personagens que mais me tocam não são as duas amigas, nem o seu bando de companheiras com as suas pequenas e grandes desgraças, mas sim as mulheres mais velhas, quase sempre mulheres duras e ásperas, pelo muito que foram perdendo - ilusões, beleza, amores, emoções, até o juízo -, em especial a hermética e antagónica mãe da narradora, com a sua "perna ofendida" e o "olho dançarino", mas também Melina, a professora Oliviero, Nunzia, Nella.


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 09 Setembro , 2015, 01:04

 

O facto de nos meus sonhos aparecerem cada vez mais mortos não é surpreendente, dado o inevitável aumento dessa "secção" dos meus conhecimentos, mas deixa-me ainda um pouco desconcertado. Ao princípio, algumas das aparições eram arrebatadoras, pela surpresa de encontrar vivo quem se julgava morto, e até dolorosas, sobretudo quando só após alguns instantes depois do despertar me compenetrava que o morto em causa, vivo no sonho, afinal continuava morto na vida. Mas depois banalizou-se: já são bastantes mortos, e muitos já há longo tempo; agora já não faço grande distinção entre mortos e vivos que se passeiam pelos meus sonhos, embora permaneça uma certa estranheza. É como diz Eugenio Montale:

 

"Espalhei a alpista pelo parapeito

para o concerto de amanhã cedinho.

Apaguei a luz e esperei pelo sono.

E sobre a passerelle já começa

o desfile dos mortos grandes e pequenos

que em vida conheci. Difícil distinguir

entre quem queria e quem não queria

que voltasse cá. Lá onde estão

parecem não poder ser alterados por um pouco mais

de sublimada corrupção. Fizemos

o nosso melhor para piorar o mundo".

 

(in Caderno de quatro anos, trad. José Manuel de Vasconcelos).


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