publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 09 Junho , 2010, 23:42

 

Não deve existir nada de mais brutal e amargo do que a morte de um filho. A estupefacção decorrente da inversão de uma lógica da ética (se esta existisse): os nossos filhos devem, têm de enterrar-nos, e não o contrário. Não sei - espero nunca vir a saber - como se lida com essa perda. Para os nossos antepassados, ainda próximos - e para quem vive noutras latitudes -, as coisas deveriam ser um pouco diferentes: a grande taxa de fecundidade e a baixa esperança de vida obrigavam a encarar a morte de uma forma mais natural, integrando-a no quotidiano. Mas para nós, os que vivemos em sociedades com poucos crianças, com uma longevidade aumentada, e com a morte escondida envergonhadamente no canto das coisas desagradáveis, a morte de um filho é vista como algo de inexplicável, de intolerável, fora da narrativa pós-romântica em que construímos a nossa vida - fora da ordem natural das coisas. Dessa impossibilidade dá conta a Sr.ª Szymborska, com a serenidade (enganadora) e a acuidade que lhe são próprias, num cruel exercício; demasiado distanciado, talvez - mas haverá outra forma de olhar para isto?

 

BAGAGEM DE VOLTA

 

No cemitério, o talhão das pequenas campas.

Nós, de longa existência, atravessamo-lo furtivamente

como os ricos atravessam um bairro de lata.

 

Aqui jazem a Zosia, o Jacek e o Dominik,

prematuramente roubados ao Sol, à Lua,

às estações do ano e às nuvens.

 

Pouco amealharam na bagagem de volta.

Uns trapitos de paisagens

em número muito pouco plural.

Um punhado de ar com uma borboleta a esvoaçar.

Uma colherinha de saber amargo com gosto a remédio.

 

Umas pequenas desobediências,

nelas, uma mortal.

Uma alegre corrida atrás da bola pela estrada.

Um momento de felicidade ao deslizar no gelo quebradiço.

 

Este, aquela ali ao lado e aqueles lá da ponta:

antes que tivessem crescido para chegar à maçaneta,

estragar o relógio,

partir o primeiro vidro.

 

Malgorzatka, quatro anos,

dos quais, dois, deitada a olhar o tecto.

 

Rafalek - faltava-lhe um mês para completar os cinco,

Zuzia - a ela, só o Natal

com aquele bafo da respiração no frio.

 

E o que dizer então da vida de um só dia,

de um minuto ou de um segundo?

As trevas, o clarão da lâmpada e de novo as trevas?

 

KÓSMOS MAKRÓS

CHRÓNOS PARÁDOKSOS

Somente o grego pétreo tem palavras para isto.

 

Wislawa Szymborska in Instante (2002)

 

 

 

 


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