publicado por nobilissimavisione | Sábado, 10 Julho , 2010, 22:34

Uma das últimas edições da Economist dizia-se que o próximo grande conflito social não seria entre crenças, nem entre ricos e pobres, mas sim entre credores e devedores. A Economist toma, naturalmente, o partido dos credores, e refere que nos últimos cem anos se assistiu a uma vulgarização da dívida, no sentido do afastamento da ignomínia ou da atenuação do juízo moral sobre o incumprimento da mesma. Não é líquido quem vai prevalecer nesta nova guerra ideológica. A situação de prevalência dos credores depende da disponibilidade dos devedores em satisfazerem as suas dívidas, ou da possibilidade de os compelir a isso.

 

Esta oposição não é nova, e já teve no passado desfechos favoráveis aos devedores. No início da Constiuição dos Atenienses, Aristóteles narra que "a terra encontrava-se na mão de um punhado de pessoas; e se faltassem à entrega das rendas, tanto eles como os filhos ficavam sujeitos à servidão. Para mais, os empréstimos eram todos feitos sob hipoteca da própria liberdade, até ao tempo de Sólon; foi ele o primeiro campeão do povo. (...) Depois de se haver tornado senhor da situação, Sólon libertou o povo tanto no presente como no futuro, ao proibir os empréstimos sob garantia pessoal. Além disso, promulgou leis e procedeu a um cancelamento das dívidas, fossem privadas ou públicas, medida que os Atenienses designam por seisachtheia, porque vieram a desfazer-se de um fardo." É claro que a mudança não foi pacífica: "As pessoas passavam todo o tempo a causar incómodos umas às outras: umas tomavam por motivo e pretexto o cancelamento das dívidas, que as havia lançado na pobreza; outras, o descontentamento com a constituição, por causa da grfande mudança que operara; algumas ainda, as rivalidades mútuas".

 

Num pormenor notável, Aristóteles conta ainda uma petite histoire ligada a este aspecto, que é plenamente transponível para os dias de hoje, pelo que mostra do papel da cupidez humana, da inveja e da falta - tal como entre nós hoje - de uma imprensa esclarecida para o funcionamento de uma sociedade democrática: "aconteceu que Sólon, quando se preparava para implementar a seisachtheia, referiu previamente essa intenção a alguns notáveis. Em consequência, pelo que afirmam os democratas, foi vítima de uma manobra preparada pelos amigos; segundo os que o querem caluniar, também ele tomou parte na fraude. Essas pessoas teriam contraído empréstimos a fim de adquirirem grandes extensões de terra, pelo que, pouco depois, quando se procedeu ao cancelamento das dívidas, haviam enriquecido. Segundo se diz, é daí que provêm os que, mais tarde, ficaram conhecidos como «antigos-ricos». Ao que se conta, é mais digna de confiança a versão dos democratas".


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