publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 19 Maio , 2009, 14:28

Quem se dedicar à leitura das Actas da Assembleia Nacional Constituinte de 1911 (ed. da AR, 1986) não dará o tempo por mal empregue. Os debates são vivos e, por vezes, atingem um nível qualitativo elevado - como sucede, por exemplo, com as intervenções de Egas Moniz -, permitindo o confronto de opiniões muito díspares, dentro do limitado âmbito representativo da Assembleia (todos os deputados estavam ligados, de uma ou outra forma, ao Partido Republicano). Também se evidenciam alguns traços menos simpáticos da congregação: o ódio irracional à monarquia e o anticlericalismo virulento.  Relacionado com este último, e dentro do registo tragico-comico que fez escola nas Constituintes (em 1976 a cargo sobretudo da UDP), há um excerto memorável, da Sessão de 14 de Julho de 1911, a pp. 123-124:

 

"O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros e interino da Justiça (Bernardino Machado) - V. Ex.ª dá-me licença? O Sr. Eduardo de Abreu é por vezes excessivamente alarmante e obriga-me a dar explicações que acalmem. O Sr. Eduardo de Abreu disse que estão jesuitas no Ultramar. Effectivamente, nós encontramos os jesuítas no Ultramar, jesuitas allemães e austriacos.

 

O Sr. Sebastião Baracho - O jesuita não tem nacionalidade.

 

O Sr. MNE - Eu sei muito bem que não teem patria, e esse é até um dos motivos por que são odiados e anthipaticos a toda gente. Como disse, os jesuitas que estão no Ultramar são de nacionalidade allemã e austriaca, mas o Governo marcou-lhes um prazo para que elles pudessem ser substituidos por outros ecclesiasticos e essa substituição está-se fazendo. Eis a explicação que tinha a dar. A nossa obrigação era não perturbar os serviços nas missões, a que estavamos obrigados por tratados. Démos um prazo, sem impaciencias, porque era absolutamente indispensavel que se pudessem fazer as transformações sem prejuizo das missões, e essa transformação está-se fazendo e os padres hão-de ser substituidos...

 

O Sr. Eduardo de Abreu - Por outros jesuitas?...

 

O Sr. MNE - Por outros padres que não sejam jesuitas. Que queria V. Ex.ª que eu dissesse? Eu faltava à dignidade da minha posição se dissesse que os jesuitas haviam de ser substituidos por outros jesuitas. Não leve V. Ex.ª tão longe a jocosidade.

 

O Sr. Eduardo de Abreu - Eu não perguntei nada a V. ex.ª. Dirigi-me ao Sr. Baracho. V. Ex.ª é que se metteu no debate.

 

O Sr. MNE - V. Ex.ª faz favor de apresentar as perguntas que quizer, que o Governo ha de responder sempre de cabeça erguida.

 

O Sr. Sebastião Baracho - Se V. Exªs me permittem, eu continuo no uso da palavra, folgando muito que os jesuitas sejam de lá tirados; não substituidos, mas tirados. Na epoca em que fui commissario regio da provincia de Angola, em 1891, as missões não tinham adquirido a feição mercantil e especulativa que depois adquiriram.

 

Uma voz - V. Ex.ª está a falar em jesuitas da provincia de Angola? Confunde-os com os missionarios do Espirito Santo?

 

O Sr. Sebastião Baracho - Não senhor; mas não são melhores que os jesuitas. (Apoiados). Até o Negus da Abyssinia os expulsou dos seus dominios - aos frades do Espirito Santo. (...)"

 

Os deputados dvertiam-se, nutrindo afanosamente as sementinhas do 28 Maio.

 


JP a 19 de Maio de 2009 às 18:52
A propósito desse frenesim anticlerical, aqui há tempo tive ocasião de ver uma reprodução de um folheto divulgado por loja maçónica em que se atacava o facto de as portas das igrejas do Chiado estarem abertas durante as cerimónias, assim (não me recordo do texto exacto, mas a ideia era esta) permitindo que cidadãos incautos fossem atingidos involuntariamente pelos eflúvios clericais. O comunicado terminava indagando se ninguém se levantaria na defesa da "Liberdade", para de imediato esclarecer que se estava a preparar a devida resposta.
Este comunicado era datado de Maio de 1926, já não me lembro de que dia certo...
Há obsessões curiosas e o mais curioso é que ainda pululam por aí (e a blogosfera é fértil nessas reedições de debates velhos).
Abr.

nobilissimavisione a 20 de Maio de 2009 às 21:49
Saudações efusivas para o primeiro comentário do primeiro comentador. É verdade que o anticlericalismo ainda hoje vende bem nalgumas bandas. Mas hoje expressa-se em panfletos e dislates, na I República as coisas eram mais sérias, cacetada e bomba. Aliás, a imagem popularizada daquela época - um grupo de «bons selvagens» desastrados e azarados - é das mais distantes da realidade. O grau e a frequência da violência tornaram-na uma época pelo menos animada. Qualquer dia escrevo sobre a «Noite Sangrenta», que para mim foi o cúmulo daquela animação. Então e aí na vetusta instituição? A contagem decrescente está quase no fim...

JP a 21 de Maio de 2009 às 10:14
Bom, a contagem já começou. O drama é que não se tem a certeza da localização do zero. A ignição não deve ocorrer esta semana, mas estou com esperança para a próxima. ;)
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