publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 04 Junho , 2009, 19:33

Se o poeta Jaime Gil de Biedma fosse vivo completaria 80 anos no dia 13 de Novembro. Morreu em 1990, nada tendo publicado desde 1982, abandonando deliberadamente a poesia nos seus últimos anos. Como muitos outros grandes poetas (Francisco Brines, Ruy Belo), estudou Direito. A sua vida movimentada, entre Nava de la Asunción (Segovia), Barcelona e Manila, está em parte recriada no volume autobiográfico "Retrato do Artista em 1956" publicado postumamente (ed. portuguesa da Relógio de Água de 2002). Integrado no grupo de poetas conhecido como "geração de 50", a sua poesia profundamente pessimista e atormemtada é porém mais distendida, mais irónica - por vezes, o poeta vê-se a si mesmo com algum distanciamento - do que a de outros poetas daquele grupo,  mas não é menos intensa. O papel da memória e da infância na sua poesia estão bem presentes no poema "Ribeira dos Amieiros", publicado em 1966 (aqui na tradução de José Bento):

 

São mais velhos os pinheiros

Pelo carreiro abaixo,

sujas de areia e roçadelas,

como os meus joelhos em menino,

espreitam as raízes.

E lá ao fundo o rio entre os álamos

completa como sempre esta paisagem

a que no mundo quero,

enquanto sua lembrança me devolve

entre as primeiras de toda a minha vida.

 

Um pequeno recanto no mapa de Espanha

que sei de cor, porque foi o meu reino.

Poderia imaginar

que o tempo não passou,

como aos seis anos, nessa idade

em que o dormir é o descanso verdadeiro,

com os olhos fechados

e acordado na cama, nas manhãs de inverno,

imaginava um dia do verão anterior.

Com o olor profundo dos pinheiros.

Mas estão estas mudanças tão pouco perceptíveis

nas raízes, ou no próprio carreiro,

que me forçam às vezes a desfazer o andado.

Estão estas lembranças, que não servem senão

para morrer comigo.

 

Pelo menos a vida no colégio

era um indício do que é a vida.

E contudo, são estas imagens

- uma noite a cavalo, o nascimento

terrivelmente impuro da lua,

ou a visão do rio a aparecer

há muitos anos já, num mês de setembro,

a exaltação e o medo de estar só

quando vai entardecer -,

antes de nenhumas outras,

as que voltam e têm um sentido

que não sei bem qual é.

A intensidade

de uma súbita labareda, porventura somente,

e também uma antiga inclinação humana

para confundir beleza e significação.

 

Imagens formosas de uma história

que não é toda a história.

Demasiado me lembro dos meses de outubro,

dos regressos a casa já de noite, a cantar,

com o vento do outono a cortar-nos os lábios,

e da excitação na sala de cima

junto à lareira acesa, quando eram familiares

o ritmo da casa e o das estações,

a doçura de uma ordem artificiosa e rústica,

como as personagens

no papel da parede.

 

Um sonho dos adultos, tudo aquilo.

Sonho da sua nostalgia de outra vida mais nobre,

de outra idade a exaltá-los

para uma eternidade de valiosas quintas,

para além do seu medo de morrer sozinhos.

Assim fui, desde criança, habituado

ao exercício da irrealidade,

e ainda, na melancolia

que me resta de então,

há um rancor de consciência enganada,

ressentimento demasiado vivo

que nem o silêncio e a solidão acalmam,

embora talvez também alguma coisa mais funda

tragam ao coração.

Como o latejo

dos pinhais, ao parar o vento,

que se preparam para escurecer.

 

Alguma coisa que já não é quase sentimento,

uma disposição de afinidade profunda

com a natureza e com os homens,

que até a ideia de morrer parece

bela e tranquila. Tal como este lugar.

 


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