publicado por nobilissimavisione | Sábado, 13 Junho , 2009, 22:42

Outro poeta da Geração de 50. O poeta. Francisco Brines  nasce em 1924 em Oliva, na província de Valência. A sua poesia é complexa, densa e intensamente elegíaca (segundo alguns, demasiado). Os temas são os do costume: o tempo, a morte e, mais distante, um reflexo do amor. Cinzas. O seu livro mais belo é o «El Otõno de las Rosas» (1984). Há uma antologia dos seus poemas em português, muito completa, organizada e traduzida por José Bento. É de lá que retiro esta poema:

 

DE BASSAI E O MAR DE OLIVA

 

Era naquela viagem pelas terras adormecidas da Arcádia,

para encontrar o templo onde florescera o primeiro sorriso de capitel de acantos

(ou de rosas),

ali onde a ausência adusta do cestinho era um canto de fogo e de cigarras.

As colunas de pedra sustinham o pássaro e o céu.

Os pássaros azuis, o céu desmoronado.

O féretro estival do tempo destruído. E tudo se perdia e era eterno.

Em teus olhos eu olhava o mundo que era estável, muito velho, e tu sonhavas só

como a juventude.

 

E antes vi o mar, nas horas solitárias da sesta,

quando o sol enlouquece sua extensa superfície, e brilha no ar de ouro suspenso

essa frescura eterna que faz deuses meninos os olhos do que olha,

quando chegam velozes e pausadas as velas distantíssimas,

e só existe o mar, o corpo de uma glória azul e inacabável,

e aquele que o contempla com olhos escondidos e o olhar ardente:

o rapaz, com um secreto amor também inacabável

de si mesmo,

porque o mundo e a vida se hospedam nele apenas.

E ninguém havia ainda que o suplantasse, nem tua humana formosura.

 

O mar está aí, mas não o olhar e as velas,

e o templo, com as suas portas fechadas, é triste e católico.

Alguém me deu um abraço de adeus definitivo num cais muito acre

e busco nos espelhos, e arranho e não encontro

esse que fui e que de mim morreu e é minha inexistência.

Sinto-o mais estranho que a mim mesmo

quando, enfim já cego, anseie conhecer-me e o vazio seja tudo,

e isto assim porque avisto um breve resto de sua luz ainda.

 

Sei que cheirei um jasmim uma tarde na infância e não existiu a tarde.

 


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