publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 25 Junho , 2009, 02:28

Oriane, duquesa de Guermantes, representa uma das mais marcantes figuras da nobreza francesa do princípio do século XX. Descendente de Geneviève de Brabant, a sua linhagem remontava ao início da nacionalidade e integrava-a no mais exclusivo escalão da aristocracia francesa. Educada pela sua tia, a marquesa de Villeparisis, uma mulher com uma inteligência e uma cultura notáveis, juntamente com o seu primo Palamède, barão de Charlus, recebeu uma instrução esmerada. Casou com o seu primo Basin, para apurar a linhagem e poder assinar Guermantes e Guermantes (superiorizando-se assim aos príncipes de Guermantes). Contudo, não tiveram filhos. A sua beleza luminosa, a sua rigorosa elegância, a vivacidade da sua inteligência, fascinaram um grande número dos seus contemporâneos e conferiram a primazia absoluta ao seu salão no Faubourg Saint-Germain.

 

Porém, a sua personalidade revelava alguns traços menos agradáveis: superficialidade misturada com um profundo convencionalismo e conservadorismo, convictamente anti-dreyfusista, e uma desagradável mesquinhez e mesmo crueldade, revelada logo na forma como gostava de atormentar os criados. Pode ser vista, em parte, como uma vítima do seu sanguíneo marido, o duque, que impunha a presença no seu salão de um cortejo de amantes (todas da melhor sociedade, é claro). A sua decadência será severa, mostrando-se irreconhecível, tal como o seu slão, não muito anosdepois do apogeu.

 

Os modelos para a personagem terão sido vários:  Henriette de Montesquieu, marquesa de Eyragues, Laura, condessa de Chevigné, Elisabeth, condessa Greffulhe, Herminie, duquesa de Rohan e Madame Straus.

 

A sua figura e a sua personalidade (e as do duque) são magistralmente ilustradas na famosa cena dos sapatos vermelhos. Basin e Orianne têm um importante jantar, mas há um parente, nem muito próximo nem muito afastado, o marquês de Osmond, que está às portas da morte; se morrer, os Guermantes não poderão ir ao jantar. O duque manda o criado saber novas do moribundo, e quando aquele regressa dizendo que o doente está por um fio, o duque quase que lhe bate, e afiança a quem o pode ouvir que o marquês de Osmond em breve andará pelo seu pé. Nisto chegam a casa dos Guermantes o narrador , novo amigo da duquesa, e Charles Swann, homem mundano e esteta, e, embora judeu, velho e querido amigo da duquesa (e do príncipe de Gales):

 

"(...) Não diz se vem a Itália conosco?

- Acho que não será possível, minha senhora.

- Pois é, a senhora de Montmorency tem mais sorte. Esteve com ela em Veneza e em Vicenza. Disse-me ela que consigo se viam coisas que de outro modo nunca se veriam, de que nunca ninguém falou, que você lhe mostrou coisas inauditas, e que, até nas coisas conhecidas, conseguiu compreender pormenores diante dos quais, se não fosse você, teria passado vinte vezes sem nunca reparar. Não há dúvida de que foi mais favorecida que nós. Pegue no imenso sobrescrito das fotografias do senhor Swann - disse ela ao criado - e vá entregá-lo da minha parte, de canto dobrado, esta noite às dez e meia, em casa da senhora condessa Molé.

Swann desatou a rir.

- No entanto, gostava de saber - perguntou-lhe a senhora de Guermantes - como é que, com dez meses de antecedência, pode saber que será impossível?

- Minha cara duquesa, eu digo-lhe se faz muita questão nisso, mas, antes de mais nada, está a ver que não estou nada bem de saúde.

- É, é, Charles, meu anjo, eu acho que você não está com boa cara, não estou nada contente com a sua cor, mas não lhe peço aquilo para daqui a oito dias, peço-lhe para daqui a dez meses. Em dez meses bem sabe que há tempo para se tratar.

Nesse momento chegou um criado a anunciar que a carruagem estava pronta. «Vamos, Oriane, a cavalo», disse o duque, que já se agitava de impaciência, como se também ele fosse um dos cavalos que esperavam.

- Bem, numa palavra, que razão o há-de impedir de vir a Itália?

- Oh, minha cara amiga, é que nessa altura já terei morrido muitos meses antes. Segundo os médicos que consultei, no fim do ano o mal de que sofro, e que aliás me pode levar já, não me dará, em qualquer caso, mais de três ou quatro meses de vida, e isso já é o máximo dos máximos - respondeu Swann a sorrir, enquanto o criado abria a porta envidraçada do vestíbulo para deixar passar a duquesa.

- Que está para aí a dizer? - exclamou a duquesa detendo-se por um segundo no seu caminho para a carruagem e erguendo os seus belos olhos azuis e melancólicos, mas cheios de incerteza. Colocada pela primeira vez na sua vida entre dois deveres tão diferentes como subir para a carruagem para ir jantar fora e mostrar compaixão por um homem que vai morrer, nada via no seu código de conveniências que indicasse a jurisprudência a seguir, e não sabendo a qual das duas alternativas  havia de dar preferência, julgou-se no dever de fingir que não acreditava que a segunda se pudesse pôr, de modo a obedecer à primeira, que naquele momento exigia menos esforços, e pensou que a melhor maneira de resolver o conflito era negá-lo. - Quer brincar? - disse ela a Swann.

- Seria uma brincadeira de encantador bom gosto - respondeu ironicamente Swann. - Não sei porque lhe digo isto, não lhe tinha falado da minha doença até agora. Mas perguntou-mo, e como posso morrer de um dia para o outro... Mas sobretudo não quero que se atrase, vai jantar fora - acrescentou, porque sabia que para os outros as obrigações mundanas estão acima da morte, e punha-se no lugar deles graças à sua delicadeza. Mas a da duquesa permitia-lhe também entrever confusamente que o jantar a que ia devia contar menos para Swann do que a sua morte. Por isso, sem deixar de se encaminhar para a carruagem, encolheu os ombros dizendo: «Não se preocupe com esse jantar. Não tem qualquer importância!» Mas estas palavras despertaram o mau humor do duque, que exclamou: «Vá lá, Oriane, não fique para aí a tagarelar e a trocar as suas jeremiadas com Swann, pois bem sabe que a senhora de Saint-Euverte faz questão de ir para a mesa às oito em ponto. Temos de saber o que quer, olhe que há uns bons cinco minutos que os seus cavalos estão à espera. Eu peço-lhe desculpa, Charles», disse virando-se para Swann, «mas são oito menos dez. A Oriane está sempre atrasada, vamos levar mais de cinco minutos até casa da vellha Saint-Euvert.»

A senhora de Guermantes avançou decididamente para a carruagem e tornou a dizer um último adeus a Swann. «Havemos de falar disso, mas olhe que não acredito numa palavra do que diz, temos de falar do assunto. Devem tê-lo assustado estupidamente, venha almoçar cá, no dia em que quiser (para a senhora de Guermantes tudo se resolvia sempre em almoços), dir-me-á o dia e a hora que escolher»; e, erguendo a saia encarnada poisou o pé no estribo. Ia a entrar na carruagem, quando, ao ver aquele pé, o duque exclamou numa voz terrível: «Oriane, que vai você fazer, infeliz? Ficou com os sapatos pretos! Com uma toilette encarnada! Suba depressa para calçar os sapatos encarnados, ou então (disse para o criado), vá já dizer à criada de quarto da senhora duquesa que traga uns sapatos encarnados.»

- Mas, meu querido - respondeu docemente a duquesa, incomodada por ver que Swann tinha ouvido tudo, pois ia a sair comigo mas quisera deixar passar a carruagem -, como estamos atrasados...

- Nada disso, temos todo o tempo. Ainda faltam dez minutos, não levamos dez minutos até ao Parque Monceau. E, além disso, enfim, que quer, mesmo que fossem oito e meia eles esperavam, mas não pode ir com um vestido encarnado e sapatos pretos. Para mais, não seremos os últimos, pois há os Sassenage, sabe que esses nunca chegam antes das nove menos vinte.

A duquesa tornou a subir ao quarto.

- Pois é - disse-nos o senhor de Guermantes -, pobres maridos, fazem pouco deles, mas apesar de tudo têm coisas boas. Se não fosse eu, a Oriane ia ao jantar de sapatos pretos.

- Não era feio - disse Swann. - Eu tinha reparado nos sapatos pretos, e não me chocaram nada.

- Não digo que não - respondeu o duque - mas é mais elegante serem da mesma cor do vestido. E, além disso, descanse, que ela, mal chegasse, daria pela coisa e eu é que seria obrigado a vir buscar os sapatos. Acabaria por jantar às nove horas. Adeus, meninos - disse ele afastando-nos brandamente -, vão-se embora antes que a Oriane desça. Não que ela não goste de os ver a ambos. Pelo contrário, é porque ela gosta de mais de os ver. Se os encontra ainda aqui, recomeça a falar, e já está muito cansada, chega ao jantar morta. Além disso, confesso-lhes francamente que estou a morrer de fome. Almocei muito mal esta manhã depois da viagem de comboio. Havia um maldito molho bearnês, mas apesar disso não me importava nada, mesmo nada, de ir para a mesa. Oito menos cinco! Ah, as mulheres! Vamos ficar com dores de estômago os dois. Ela é bem menos sólida do que se julga.

Ao duque não lhe custava nada falar dos incómodos da mulher e dos dele a um moribundo, porque esses, como o interessavam mais, lhe pareciam mais importantes. Por isso, foi apenas por boa educação e espírito galhofeiro que, depois de amavelmente nos mandar embora, gritou da porta a Swann, que estava já no pátio, em voz de estentor:

- E você não se deixe impressionar por essas tolices dos médicos, que diabo! Eles são uns burros. Você está tão bem de saúde como o Ponte-Neuf. Há-de enterrar-nos a todos!" (Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, Vol. III - O lado de Guermantes (trad. Pedro Tamen), pp. 595-598.


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