publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 21:31

Eloy Sánchez Rosillo nasceu em Múrcia, em 1948. É mais um discípulo de Cernuda (doutorou-se, aliás, com uma tese sobre este poeta). É o mais incisivo no olhar sobre o efeito corrosivo do tempo. O momento presente é uma ruína de vários passados, uns mais distantes, outros quase prospectivos, e em diferentes estados de conservação ou de gestação. Há uma urgência na sua poesia que lhe imprime um ritmo menos contemplativo do que o de Brines, sem prejudicar a serenidade da aceitação do fluir da vida. O poema que aqui transcrevo vêm do livro La Vida (1989-1995), e está publicado em português na antologia "As coisas como foram". O seu objecto é mais amplo do que a ilustração da memória poética da infância - outros poemas deste Autor seriam porventura mais adequados -, mas é o meu preferido. A tradução é, mais uma vez, de José Bento.

 

DAQUI

 

Esta estranha ladeira pela qual vou descendo

corre entre a névoa. Já não me lembro ao certo

se houve sol matinal quando eu subia,

ou se era aquele cimo onde estive depois

o próprio centro da luz. Agora

dou passos com cuidado; tudo aqui é confuso.

No tempo me perdi. Avanço e retrocedo

e não consigo agarrar as formas puras

do existir em que me apoiava

quando o mundo era firme e as coisas tinham

princípio e fim, definição, contornos.

Não há ontem, nem presente, nem amanhã.

Em que lugar do tempo se vai estendendo

a bruma que me envolve? O antes é depois,

o que passou não foi, o que ainda

há-de vir talvez esteja a acontecer.

Quem sou? Quem dentro de mim me desconhece?

Fui um menino um dia, ou inventei uma história

que me ajudasse a viver nos maus momentos?

Entrevejo ao longe um verão

que não teve começo e não termina

(é sempre verão quando relembro

na escuridão a luz primeira):

uma casa no campo; estou a brincar junto

à acácia que sombreia a porta;

minha mãe costura ou lê perto de mim e olha-me

com os olhos mais doces e mais límpidos

que desde sempre vi. E de súbito não existem

aquela casa branca, a vinha, as amendoeiras,

as galeras carregadas com sacos de trigo

sob o fulgor de agosto e minha mãe já não está

a olhar-me. Um rapaz escreve num caderno

seus primeiros poemas; é de noite; a lua

entra pela janela do seu quarto;

olhai-o a trabalhar: que emoção no seu peito,

como em suas mãos arde a vida que tanto gostaria

de exprimir no papel. Mas vai chegando

à cidade a aurora pouco a pouco

e o quarto que antes vimos está ermo;

parece que jamais terá estado

neste quarto aquele adolescente

que na noite escrevia. Uma jovem passa

perto de mim e pára; estão cheios de ilusão

seus olhos muito azuis, o seu sorriso. Começamos

a andar por um caminho. A que sítio nos leva?

De súbito, decorrem muitos anos.

Onde surge o amor? Quando se extingue?

Um menino está sentado no tapete; brinca

com seus brinquedos; grita e bate palmas

ao contemplar o inúmero exército

de ferozes bonecos que dispôs

diante de si em rigorosa formação de batalha.

E eu assisto ao milagre da sua infãncia; rimo-nos

com o riso mais aberto e, abraçados,

filho e pai rolamos pelo chão

enquanto corre lenta, lentamente,

uma manhã de primavera.

Mas num só instante a noite fechou-se;

crescem as sombras, e é inverno e chove,

e não há ninguém em minha casa. O que houve?

Que é daquele menino que com o riso

me unia a uma verdade tão verdadeira?

E que é feito de mim, das tão seguras

convicções que me sustinham?

Habita-me um estranho. Nos espelhos eu vejo

o olhar perplexo, interrogante,

de um rosto alheio, de alguém que em nada se parece

ao que fui alguma vez. Não sei se estou a sonhar,

não sei se estou acordado, se imagino ou recordo.

Talvez sonhemos sempre. Eu vivo na incerteza.

No tempo me perdi. Caminho pela névoa,

desço às apalpadelas a ladeira insegura.

Tudo se passa agora depressa, bem depressa;

imagens, acontecimentos, enteléquias,

apagam-se, iluminam-se, vão e vêm.

O que é antes? O que é depois? Quem entrelaça,

ordena e desordena as minhas horas?

A realidade e o sonho e a memória,

onde começam e acabam?


mais sobre mim
Julho 2009
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
17

19
20
22
23
24
25

26
27
28
29
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO