publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 11 Julho , 2014, 22:54

"E como a duração média da vida - a longevidade relativa - é muito maior para a memória das sensações poéticas do que para a dos sofrimentos do coração, tanto tempo depois de se terem desvanecido os desgostos que me afligiam por causa de Gilberte, sobreviveram-lhes o prazer que sinto de cada vez que quero ler, numa espécie de relógio solar, os minutos existentes entre o meio-dia e um quarto e a uma hora, no mês de Maio, quando me revejo a conversar assim com a senhora Swann, sob a sua sombrinha, como sob o reflexo de um caramanchão de glicínias."


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 03 Julho , 2013, 03:39

Um dos traços característicos da obra de Philip Larkin é uma sensibilidade aguda para com o sofrimento dos animais. Encontra-se em evidência no redentor poema final do volume The Less Deceived, o soberbo At Grass, mas é nos poemas amargos sobre a morte dos animais que o poeta, mascarando a ternura com rudeza e uma ironia feroz características da sua difícil personalidade, vai mais fundo na expressão do sentimento, sem recorrer ou induzir, ao contrário de muito outros, qualquer humanização dos animais.

 

MYXOMATOSIS

 

Caught in the centre of a soundless field

While hot inexplicable hours go by

What trap is this? Where were its teeth concealed?

You seem to ask.

                           I make a sharp reply,

Then clean the stick. I'm glad I can't explain

Just in what jaws you were to suppurate:

You may have thought things would come right again

If you could only keep quite still and wait.

 

(in The Less Deceived, 1955)

 

TAKE ONE HOME FOR THE KIDDIES

 

On shallow straw, in shadeless glass,

Huddled by empty bowls, they sleep:

No dark, no dam, no earth, no grass --

Mam, get us one of them to keep.

 

Living toys are something novel,

But it soon wears off somehow.

Fetch the shoebox, fetch the shovel --

Mam, we're playing funerals now.

 

(in The Whitsun Weddings, 1964)

 


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 03 Julho , 2013, 03:37

O dia de hoje (ontem) deveria figurar numa antologia do asco político em Portugal. Dos que falaram, ninguém esteve bem. Salva-se (por omissão) a serenidade da Ministra das Finanças.


publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 24 Junho , 2013, 21:41

Mártir q.b.O novo paladino dos direitos humanos apresentou-se a princípio como um puro e genuíno democrata, "nem herói nem traidor, um americano", pronto a imolar-se pela defesa da privacidade alheia. Entretanto, e prezando menos a própria privacidade, o dito americano emaprelha agora com o Sr. Assange da Wikileaks, também perseguido pelos EUA, e adicionalmente, num processo de assédio sexual,   pela tenebrosa Suécia. Depois de proferir alguns dislates que empalideceram a sua imagem de fénix da NSA e da CIA, o Sr. Snowden reconsiderou a sua vocação para o martírio, e pede asilo ao Equador, ou a Cuba, ou à Venezuela, tudo conhecidos faróis da liberdade de expressão e do respeito pelos direitos humanos. Sem deixar de agradecer ao Sr. Snowden a preocupação com a minha privacidade, é pena que a natureza humana o tenha reconduzido afinal ao lugar que, desde o início deveria ter sido o seu: o de personagem de um (mau) filme de aventuras série B.


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 22 Março , 2013, 17:47

Espanta-me o alvoroço criado com o imposto sobre os depósitos bancários em Chipre. Já estava na hora de pôr o capital a contribuir para o salvamento dos bancos, em vez de sobrecarregar exclusivamente os rendimentos do trabalho com essa tarefa - cuja inevitabilidade se funda sempre em considerações de elevada abstracção, como o risco sistémico, alheias a qualquer juízo de equidade. Dir-se-á que no caso dos pequenos aforradores a distinção entre rendimentos do trabalho e do capital é pouco nítida; então faça-se a diferença, isentando os depósitos de menor montante. Parece que é exactamente isso que o Governo cipriota não quer, por causa dos depositantes estrangeiros, russos e britânicos, que aproveitaram as condições ofereicdas pelo «paraíso fiscal». Mas afinal, o Governo de Chipre governa para quem?


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 18 Abril , 2012, 12:10

Quase a fazer uma semana, o golpe de Estado na Guiné-Bissau continua sem autores assumidos. O poder na Guiné está neste momento nas mãos de anónimos, o que é revelador do seu grau de coragem e de boa-fé. Mas falta-lhes talento: primeiro o CEMGFA António Indjai estava detido (porquê?), depois passou a estar em lugar seguro, agora não há resposta ... Esse conjunto de anónimos, que não dispõe de nenhum tipo de legitimidade, arroga-se o poder de interromper o processo eleitoral para reclamar eleições, e acena com uma suposta carta do PR interino e do PM acordando uma intervenção militar angolana. Onde está essa carta? Alguém a viu? Este poder supostamente anónimo confia numa tradição de impunidade para obter ganhos que lhe permitam subverter, pelo menos em parte, a vontade já expressa e a exprimior pelo eleitorado. Não merecem qualquer contemplação. Há que quebrar o ciclo de violência e impunidade. A ONU tem de poder ouvir a vontade dos titulares dos órgãos de soberania ilegalmente detidos, pois eles continuam a representar o povo guineense, e se isso não for possível, conferir o mandato necessário para a resolução da crise, pela força, por quem o possa e queira fazer.


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 11 Abril , 2012, 23:45

negros olhos em fundo branco, branco azul / a suavidade do
colo, uma suavidade em curva que se desfaz / numa refulgência /que suavemente se
traça / se destraça /se oculta em tons de negro, negro azul /como a cúpula
pontilhada, interrogativa

que mistérios da noite velas tu, Mãe África? / as sombras
imóveis / ou móveis? / de uma árvore, homem ou pássaro?

o certo é que a terra vermelha / o teu ventre /o amanhecerá ainda
mais.


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 22 Novembro , 2011, 00:26

Os governos tecnocráticos de Monti e de Papademos suscitam aprovação quase unânime, dentro e (sobretudo) fora de portas (quem não anseia por se ver livre de Berlusconi?). Mas, neutralizados os partidos políticos e, supostamente, a própria política, não se arredou também a democracia? Não corresponde isto à suspensão da democracia de que falava Manuela Ferreira Leite? Ou basta a complacência ou o esgotamento dos partidos para ficcionar que assim não é?


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 04 Maio , 2011, 22:52

15% dos 78 mil milhões de euros são para recapitalizar a banca. 15%! É verdade que os bancos terão de subir o seu nível de solvabilidade mínimo de 8 para 10%. E é verdade também que essa recapitalização é necessária para lhes permitir normalizar a concessão de crédito às empresas e particulares, sem o que a retoma económica ficaria impedida. Mas este tratamento privilegiado, a ideia de que a actividade bancária é demasiado importante ou essencial para a economia de um país para que possa ser sujeita ao mesmo «aperto» que todos os outros vão sofrer, leva a pensar se faz sentido que esteja em mãos privadas. É mais eficiente assim? Pois é. Pode ser melhor regulada? Talvez. Mas há um mínimo de equidade que a sociedade deve exigir.


publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 04 Maio , 2011, 22:42

Adeus soberania, por uns tempos pelo menos. É um epílogo adequado para a espiral de descrédito, incompetência, mentira e egoísmo dos actuais decisores políticos - do Governo, em especial. Em termos objectivos, as medidas impostas - sim, impostas - pelo FMI/FEEF/Comissão Europeia são, na quase totalidade, necessárias e regeneradoras - a esperança reside agora nos resultados da sua execução. Seja como for, é um triste desfecho para os primeiros 37 anos de democracia da III República.


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