publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 09 Setembro , 2015, 01:04

 

O facto de nos meus sonhos aparecerem cada vez mais mortos não é surpreendente, dado o inevitável aumento dessa "secção" dos meus conhecimentos, mas deixa-me ainda um pouco desconcertado. Ao princípio, algumas das aparições eram arrebatadoras, pela surpresa de encontrar vivo quem se julgava morto, e até dolorosas, sobretudo quando só após alguns instantes depois do despertar me compenetrava que o morto em causa, vivo no sonho, afinal continuava morto na vida. Mas depois banalizou-se: já são bastantes mortos, e muitos já há longo tempo; agora já não faço grande distinção entre mortos e vivos que se passeiam pelos meus sonhos, embora permaneça uma certa estranheza. É como diz Eugenio Montale:

 

"Espalhei a alpista pelo parapeito

para o concerto de amanhã cedinho.

Apaguei a luz e esperei pelo sono.

E sobre a passerelle já começa

o desfile dos mortos grandes e pequenos

que em vida conheci. Difícil distinguir

entre quem queria e quem não queria

que voltasse cá. Lá onde estão

parecem não poder ser alterados por um pouco mais

de sublimada corrupção. Fizemos

o nosso melhor para piorar o mundo".

 

(in Caderno de quatro anos, trad. José Manuel de Vasconcelos).


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