publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 03 Outubro , 2016, 01:43

Quando Júpiter se disfarça de Diana para enganar e se aproximar da ninfa Calisto, logo a violando e engravidando, esta sofre a terrível  vingança de Juno:

"Já há muito que a esposa do magno Tonante de tudo sabia; adiara, porém, a atroz punição para uma ocasião oportuna.

Agora não havia razão para esperar mais: o menino, Árcade (e foi isto que mais magoou Juno), já a rival dera à luz.

Logo que voltou para aqui os seus olhos e a cruel atenção,

'Só faltava mais esta, ó adúltera', exclamou, ', que ficasses grávida e, ao dares à luz, tal ultraje se tornasse conhecido, dando assim provas da conduta desonrosa do meu Júpiter. Mas não ficarás sem castigo! Não! Eu roubar-te-ei a beleza que te encanta e que seduziu o meu marido, ó metediça!'

Assim falou; e encarando-a, puxou-a pelos cabelos da testa, atirou-a ao chão, de bruços. Ela estendia os braços, em súplica; porém, pelos braços começaram a eriçarem-se negros pêlos, as mãos a encurvarem-se, alongarem-se em garras recurvas e a servirem de patas, e a boca em tempos tão elogiada por Júpiter, a transfigurar-se em largo focinho. E para que com preces e súplicas ninguém comovesse, rouba-lhe a faculdade de falar: só uma voz enraivecida e ameaçadora, que inspira terror, sai da garganta rouca.

Embora tornada ursa, conserva a antiga mente humana, e dá provas do seu sofrer com incessantes urros; e ergue as mãos, o que quer que sejam, para os céus e as estrelas, sentindo, embora não consiga dizer, que Júpiter era ingrato.

Ah! Tanta vez, não ousando repousar na solidão da floresta, não vagueou ela diante da casa e nos campos outrora seus!

Ah! tanta vez, perseguida entre fragas pelo ladrar dos cães, a caçadora não fugiu espavorida com medo dos caçadores!

Muitas vezes se escondeu ao ver feras, esquecida do que era, e a ursa se arrepiou de horror ao avistar nos montes ursos, e se apavorou com os lobos, embora seu pai fosse um deles.

E eis que um dia chega o filho, Árcade, sem saber da sorte da mãe, a filha de Licáon, já com quase quinze anos de idade.

Perseguia animais selvagens, escolhia as clareiras propícias, e rodeava a floresta do Erimanto com redes entrançadas, quando esbarra com a sua mãe. Ao ver Árcade, ela pára, como se o reconhecesse. Ele, por seu turno, recua e foge.

Na sua ignorância, apavora-se com o olhar dela, imóvel, fixado nele sem cessar; e quando ela fez sinal de se abeirar, apronta-se a trespassar-lhe o peito com mortífero dardo.

Mas o Omnipotente não deixou, tirando dali, a um tempo, o delito e eles: levados pelo vazio dos ares no vento alado, dispô-los no firmamento e fê-los duas constelações vizinhas."

 

(Ovídio, Metamorfoses, Livro II, 466-508, trad.Paulo Farmhouse Alberto).


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