publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 14 Maio , 2010, 18:16

 

Magnífico livro. A apresentação é estruturada em torno das figuras que o Autor considerou mais importantes, o que é eficaz, mas deixa de fora algumas personagens interessantes, como o Imperador Tibério. A escrita é viva, inteligente e empolgante, por vezes no limite da transição para o romance, como na história da (breve) vida e morte do tribuno Tibério Graco, paladino do povo romano e da redistribuição da riqueza recolhida com a subjugação de Cartago, claramente a figura preferida do Autor. A abordagem dos primeiros imperadores parece ter um cunho mais psicológico e subjectivo do que a apresentação dos imperadores posteriores. Dos primeiros, destaca-se a figura patética de Nero, perdido, para além de uma excessiva emulação da cultura grega, por uma irresistível compulsão artística para actuar em público, como actor, cantor e tocador de lira. O retrato mais bisonho é, previsivelmente, o de Constantino, o primeiro imperador cristão. O meu preferido? O Imperador Vespasiano, que antes da nomeação por Nero como comandante das forças romanas na guerra contra a Judeia, "era um general caído em desgraça que vivia na exilado na Grécia. Filho de um cobrador de impostos, e tendo sido o primeiro membro da família a chegar ao Senado, Vespasiano teve o privilégio de ser incluído na comitiva que acompanhou Nero na sua digressão pelos festivais gregos (...). Vespasiano retribuiu o cumprimento adormecendo na audiência (...). Piadas populares e jogos de bola eram o que Vespasiano preferia (...) Era um soldado, corpulento de físico e com uma expressão sempre tensa no rosto. A ascensão ao Senado ficara a dever-se aos seus feitos militares" (p. 203). Foi ele quem pôs em ordem as finanças de Roma, completamente exauridas pelos delírios arquitectónicos de Nero. Chegou ao ponto de criar um imposto sobre a urina, e quando o seu filho Tito se insurgiu contra aquilo que considerou um excesso, Vespasiano pegou num punhado de moedas e perguntou-lhe se lhe cheiravam a alguma coisa em particular.

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publicado por nobilissimavisione | Sábado, 03 Outubro , 2009, 00:39

Há muito tempo que um livro não me irritava tanto. Mas provavelmente sem razão. Os desaparecidos, de Daniel Mendelsohn, que relata um périplo afectivo e geográfico - Austrália, Galícia, Israel, Escandinávia... -, numa busca pelo que sucedeu verdadeiramente aos seus parentes desaparecidos no Holocausto, parece ser mais um volume destinado à família do autor do que ao público em geral. O  narcisismo do autor, a equiparação obsessiva dos seus traços físicos aos dos familiares desparecidos, a exposição (muito americana) sem qualquer pudor dos seus sentimentos (do autor e dos seus irmãos), a omissão de partes da história, em si perfeitamente legítima, mas que o autor nos "esfrega na cara", dando o máximo relevo àquilo que aparentemente pretende resguardar, tornam a leitura desconfortável - no fundo, como se o leitor estivesse a partilhar de algo que não lhe cabe. E a comparação do conflito entre Caim e Abel com a relação entre os judeus e os ucranianos, que é uma das linhas de força do livro, é pretensiosa e (julgo) despropositada, tal como o alongamento artificial da narrativa. Mas a afectuosa caracterização de algumas figuras notáveis - a irónica e comovente Sr.ª Begley, por exemplo -, muito bem conseguida, e a serena descrição da indizível violência, maldade, mesquinhez e paradoxal banalidade das atrocidades que são reveladas na segunda metade do livro, justificam plenamente a sua leitura. O passado é uma pedra com várias faces. Muitas vezes pesada e erodida.

 


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 18 Julho , 2009, 22:34

É difícil descrever Os detectives selvagens, de Roberto Bolaño. A inventividade do fio condutor da trama (horrível palavra!) é excepcional: a busca da história e do paradeiro de Cesárea Tinajero, a única e misteriosa verdadeira representante de uma obscura corrente poética mexicana, o real visceralismo, cujos poemas - pelo menos os que são citados - não têm palavras. Na primeira parte do livro, o ímpeto da narrativa quase que toma o freio nos dentes (como nalgumas partes dos livros de Durrell); a escrita é dura, de um erotismo violento e sombrio, cujo ritmo é parcialmente retomado na parte final do romance (que repega a história no ponto em que a primeira parte a tinha deixado). A parte intermédia, a várias vozes, que narra incidentalmente os acontecimentos posteriores, é desigual; há partes muito belas, como a de Edith Oster no México e na Califórnia, de uma tristeza profunda e decantada que lembra a Estrela distante, ou a do tipo que adivinhava os números em Barcelona, mas a parte que se passa em Israel é quase intragável. As personagens secundárias são as mais interessantes. A leitura é por vezes difícil, e confusa; parece que o Autor se diverte a provocar-nos e a baralhar-nos. No fim de tudo: Grande livro? Obra falhada? Grande livro. Talvez. Não, sem dúvida que sim.

 

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publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 04 Junho , 2009, 00:10

A «redundância da coragem» é um livro de Timothy Mo, um autor de Hong-Kong, publicado originalmente em 1991. É um daqueles livros de leitura compulsiva, que uma vez iniciada não se consegue parar. Conta a história dos primeiros e terríveis anos da invasão indonésia e da resistência em Timor-Leste. O autor apenas mudou o nome do país, de Timor-Leste para Danu, e os nomes das personagens reais que aparecem no livro. Li-o há bastantes anos, mas só quando fui dar aulas para Timor-Leste e me comecei a interessar mais pela história do país me dei conta do rigor histórico da narrativa. É um livro poderoso, muito «negro», mas com um estilo irónico dado por um narrador aparentemente alheado do espírito da luta pela independência e pela sobrevivência - nunca deixa de se ver como alguém diferente (é de ascendência chinesa) dos seus companheiros da Resistência . Penso neste livro bastantes vezes. É a única obra de Timothy Mo traduzida em Portugal, julgo. A edição portuguesa é de 1992, da Puma, e está esgotada (infelizmente) há muito tempo.

 


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 19 Maio , 2009, 14:28

Quem se dedicar à leitura das Actas da Assembleia Nacional Constituinte de 1911 (ed. da AR, 1986) não dará o tempo por mal empregue. Os debates são vivos e, por vezes, atingem um nível qualitativo elevado - como sucede, por exemplo, com as intervenções de Egas Moniz -, permitindo o confronto de opiniões muito díspares, dentro do limitado âmbito representativo da Assembleia (todos os deputados estavam ligados, de uma ou outra forma, ao Partido Republicano). Também se evidenciam alguns traços menos simpáticos da congregação: o ódio irracional à monarquia e o anticlericalismo virulento.  Relacionado com este último, e dentro do registo tragico-comico que fez escola nas Constituintes (em 1976 a cargo sobretudo da UDP), há um excerto memorável, da Sessão de 14 de Julho de 1911, a pp. 123-124:

 

"O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros e interino da Justiça (Bernardino Machado) - V. Ex.ª dá-me licença? O Sr. Eduardo de Abreu é por vezes excessivamente alarmante e obriga-me a dar explicações que acalmem. O Sr. Eduardo de Abreu disse que estão jesuitas no Ultramar. Effectivamente, nós encontramos os jesuítas no Ultramar, jesuitas allemães e austriacos.

 

O Sr. Sebastião Baracho - O jesuita não tem nacionalidade.

 

O Sr. MNE - Eu sei muito bem que não teem patria, e esse é até um dos motivos por que são odiados e anthipaticos a toda gente. Como disse, os jesuitas que estão no Ultramar são de nacionalidade allemã e austriaca, mas o Governo marcou-lhes um prazo para que elles pudessem ser substituidos por outros ecclesiasticos e essa substituição está-se fazendo. Eis a explicação que tinha a dar. A nossa obrigação era não perturbar os serviços nas missões, a que estavamos obrigados por tratados. Démos um prazo, sem impaciencias, porque era absolutamente indispensavel que se pudessem fazer as transformações sem prejuizo das missões, e essa transformação está-se fazendo e os padres hão-de ser substituidos...

 

O Sr. Eduardo de Abreu - Por outros jesuitas?...

 

O Sr. MNE - Por outros padres que não sejam jesuitas. Que queria V. Ex.ª que eu dissesse? Eu faltava à dignidade da minha posição se dissesse que os jesuitas haviam de ser substituidos por outros jesuitas. Não leve V. Ex.ª tão longe a jocosidade.

 

O Sr. Eduardo de Abreu - Eu não perguntei nada a V. ex.ª. Dirigi-me ao Sr. Baracho. V. Ex.ª é que se metteu no debate.

 

O Sr. MNE - V. Ex.ª faz favor de apresentar as perguntas que quizer, que o Governo ha de responder sempre de cabeça erguida.

 

O Sr. Sebastião Baracho - Se V. Exªs me permittem, eu continuo no uso da palavra, folgando muito que os jesuitas sejam de lá tirados; não substituidos, mas tirados. Na epoca em que fui commissario regio da provincia de Angola, em 1891, as missões não tinham adquirido a feição mercantil e especulativa que depois adquiriram.

 

Uma voz - V. Ex.ª está a falar em jesuitas da provincia de Angola? Confunde-os com os missionarios do Espirito Santo?

 

O Sr. Sebastião Baracho - Não senhor; mas não são melhores que os jesuitas. (Apoiados). Até o Negus da Abyssinia os expulsou dos seus dominios - aos frades do Espirito Santo. (...)"

 

Os deputados dvertiam-se, nutrindo afanosamente as sementinhas do 28 Maio.

 


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 09 Maio , 2009, 19:48

Acabei (quase) de ler a colecção de ensaios de Tony Judt, "O século XX esquecido", e gostei bastante, embora o tom algo histriónico de algumas passagens se torne por vezes cansativo e retire algum peso aos argumentos expostos, como no caso dos textos sobre a Bélgica e sobre a Roménia. É um livro em que, tal como na Recherche e nas Súplicas Atendidas, estão lá "todos", e os que não constam de certeza que adorariam figurar, mesmo que para servirem de saco de pancada, como sucede, aliás, com a maior parte dos admitidos. Mas a erudição, a elegância e a justeza da maioria das opiniões expressas proporcionaram-me grande prazer na sua leitura.

 

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