publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 02 Fevereiro , 2015, 15:30

"Hurbinek era um zé-ninguém, um filho da morte, um filho de Auschwitz. Aparentava cerca de 3 anos, ninguém sabia nada dele, não falava e não tinha nome: aquele curioso nome, Hurbinek, fora dado por nós, se calhar por uma das mulheres, que tinha interpretado com aquelas sílabas um dos sons inarticulados que o pequeno de vez em quando emitia. Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha as pernas atrofiadas, delgadas como canas; mas os seus olhos, perdidos no rosto triangular e macilento, dardejavam terrivelmente vivos, plenos de perguntas, de asserção, de vontade de se desencadear, de quebrar o túmulo do mutismo. A palavra que lhe faltava, que ninguém tivera o cuidado de lhe ensinar, a necessidade da palavra fazia pressão no seu olhar com uma urgência explosiva: era um olhar selvagem e humano ao mesmo tempo, aliás maduro e juiz, que nenhum de nós era capaz de suster, tão carregado era de força e de penar.

Ninguém, salvo Henek: era o meu vizinho de cama, um robusto e florescente rapaz húngaro de 15 anos. Henek passava junto do catre de Hurbinek metade dos seus dias. Era materno mais do que paterno: é bastante provável que, se aquela nossa precária convivência se tivesse prolongado para além de um mês, com Henek Hurbinek teria aprendido a falar; certamente melhor do que com as raparigas polacas, demasiado ternas e demasiado vãs, que o embriagavam de carícias e de beijos, mas que fugiam à sua intimidade.

Henek, porém, tranquilo e teimoso, sentava-se ao lado da pequena esfinge, imune à potência triste que dela emanava; levava-lhe de comer, endireitava-lhe os cobertores, limpava-o com mãos hábeis, privadas de repugnância; e falava com ele, naturalmente em húngaro, com voz lenta e paciente. Ao fim de uma semana, Henek anunciou com seriedade, mas sem sombra de presunção, que Hurbinek "dizia uma palavra". Qual palavra? Não sabia, uma palavra difícil, não húngara: qualquer coisa como "mass-klo", "mastiklo". Na noite pusemo-nos de ouvido à escuta: era verdade, do canto de Hurbinek vinha de quando em quando uma palavra. Nem sempre exactamente a mesma, na verdade, mas era com toda a certeza uma palavra articulada; ou melhor, palavras articuladas levemente diferentes, variações experimentais em volta de um tema, de uma raiz, talvez de um nome.

Hurbinek continuou enquanto viveu nas suas experiências obstinadas. Nos dias seguintes, todos o ouvíamos em silêncio, e havia entre nós falantes de todas as línguas da Europa: mas a palavra de Hurbinek permaneceu secreta. Não, não era certamente uma mensagem, nem uma revelação: talvez fosse o seu nome, se porventura lhe tivesse calhado algum em sorte; talvez (segundo uma das nossas hipóteses) quisesse dizer "comer" ou "pão"; ou talvez "carne" em boémio, como afirmava com bons argumentos um de nós, que conhecia esta língua.

Hurbinek, que tinha 3 anos e talvez tivesse nascido em Auschwitz sem nunca ter visto uma árvore; Hurbinek, que combateu como um homem, até ao último respiro, para conquistar a entrada no mundo dos homens, de que um potentado bestial o havia banido; Hurbinek, o sem-nome, cujo minúsculo antebraço também foi marcado com a tatuagem de Auschwitz; Hurbinek morreu nos primeiros dias de Março de 1945, livre mas não redimido. Dele nada resta: Hurbinek testemunha através destas minhas palavras."

 

Primo Levi, A trégua (trad.de José Colaço Barreiros), Teorema, pp. 19-21


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 09 Outubro , 2009, 00:32

Da morte podem dizer-se muitas banalidades. Mas a transformação da própria morte de alguém numa coisa banal é algo que implica a sua desumanização; o genocídio, as execuções em massa, os campos de extermínio, que correspondem a essa banalização da morte, só são concebíveis - ou aceitáveis num sentido não valorativo desta palavra - se os carrascos conseguirem ver as vítimas como «outros», como não-pessoas, como algo ontológicamente diferente de si próprios. Se assim não fosse, seria impossível afastar o carácter sacralizado, místico, da morte, como momento de condensação de uma qualquer energia vital, de um qualquer projecto específico, uma transformação ou cessação da alma (e vou já pedindo a necessária indulgência para estes dislates). No caso dos animais, esta dificuldade seria facilmente ultrapassada: não são humanos, o momento em que deixam de viver (=morte) nada tem de único porque os animais não têm singularidade, são a repetição de alguns moldes em diversas variações, não têm alma, não são criadores, são só criaturas, cujo sacríficio é autorizado desde que afastada a pura arbitrariedade. No entanto, a morte de um animal, se olhada, se «vivida», tem muito de singular, de «humano», na dor, no sofrimento, no medo, na presciência ou na falta dela, «quando a luz se escoa», como fica claro no tempo implacável deste terrível e belo poema de Francisco Brines (a tradução, como sempre. é de José Bento):

 

MORTE DE UM CÃO

 

A chegar à cidade

pude ver que os rapazes atacavam o cão

e o obrigavam, confundidos os gritos e os uivos, a desfazer o nó com o corpo do outro,

e a corrida louca contra o muro,

e a pedra terrível contra o crâneo,

e muitas pedras mais.

E volto a ver aquele rodopio

súbito, todo o pavor do seu corpo,

sua vertigem ao correr,

sua vida a transbordar daquele corpo flexível,

sua vida que escapava pelos olhos abertos,

cada vez mais abertos

porque a morte o obrigava, com sua pressa irada,

a abandonar de dentro tanta substância por viver,

e só pelos olhos encontrava saída;

porque não havia luz,

porque só a sombra chegava, tenebrosa.

 

Ali entre os detritos

daquele muro de inóspito arrabalde

ficou estendido o cão;

e agora lembro sua cabeça hirta

com angústia imprevista:

como os humanos, seus olhos reflectiam

o terror ao vazio.

 

 

Mesmo as humildes criaturas invertebradas, em que não encontramos a dimensão trágica da morte por imitação da morte humana, contêm a possibilidade de individualização pela morte. E agora recorro à serena poesia de Fiama Hasse Pais Brandão:

 

NATUREZA MORTA COM LOUVADEUS

 

Foi o último hóspede a sentar-se

no topo da mesa, já depois do martírio.

As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas

por algum vento. Perdera o rumo

sobre a película cintilante de água

no riacho parado. Tal como poisou

junto de nós, com o belo corpo magro

arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,

um santo mártir. Enquanto meditávamos,

a morte sobreveio, e a pequena criatura,

que viera partilhar a nossa mesa,

depois de ter sido banida das águas

foi banida da terra. Alguém pegou

no volúvel alado corpo morto

abandonado sem nexo na brancura da toalha

- que maculava -

e o atirou para qualquer arbusto raro

que o poeta ainda pôde fotografar.

 

 

A morte é tão só, estupidamente, desencarnadamente, a ausência de vida e a memória da mesma. Como uma sombra. Mais uma vez Fiama:

 

A CRIA MORTA

 

As ovelhas baliam ao longe

levadas pelo caseiro

até à outra margem do campo,

quando a verdura escorre mansamente

de socalco em socalco

e fica estagnada numa berma sombria.

Só a sombra

detém esse caudal verde.

E nada susteve a primavera inelutável,

nem a agonia

do cordeiro ante-pascal.

 


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