publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 09 Outubro , 2009, 00:32

Da morte podem dizer-se muitas banalidades. Mas a transformação da própria morte de alguém numa coisa banal é algo que implica a sua desumanização; o genocídio, as execuções em massa, os campos de extermínio, que correspondem a essa banalização da morte, só são concebíveis - ou aceitáveis num sentido não valorativo desta palavra - se os carrascos conseguirem ver as vítimas como «outros», como não-pessoas, como algo ontológicamente diferente de si próprios. Se assim não fosse, seria impossível afastar o carácter sacralizado, místico, da morte, como momento de condensação de uma qualquer energia vital, de um qualquer projecto específico, uma transformação ou cessação da alma (e vou já pedindo a necessária indulgência para estes dislates). No caso dos animais, esta dificuldade seria facilmente ultrapassada: não são humanos, o momento em que deixam de viver (=morte) nada tem de único porque os animais não têm singularidade, são a repetição de alguns moldes em diversas variações, não têm alma, não são criadores, são só criaturas, cujo sacríficio é autorizado desde que afastada a pura arbitrariedade. No entanto, a morte de um animal, se olhada, se «vivida», tem muito de singular, de «humano», na dor, no sofrimento, no medo, na presciência ou na falta dela, «quando a luz se escoa», como fica claro no tempo implacável deste terrível e belo poema de Francisco Brines (a tradução, como sempre. é de José Bento):

 

MORTE DE UM CÃO

 

A chegar à cidade

pude ver que os rapazes atacavam o cão

e o obrigavam, confundidos os gritos e os uivos, a desfazer o nó com o corpo do outro,

e a corrida louca contra o muro,

e a pedra terrível contra o crâneo,

e muitas pedras mais.

E volto a ver aquele rodopio

súbito, todo o pavor do seu corpo,

sua vertigem ao correr,

sua vida a transbordar daquele corpo flexível,

sua vida que escapava pelos olhos abertos,

cada vez mais abertos

porque a morte o obrigava, com sua pressa irada,

a abandonar de dentro tanta substância por viver,

e só pelos olhos encontrava saída;

porque não havia luz,

porque só a sombra chegava, tenebrosa.

 

Ali entre os detritos

daquele muro de inóspito arrabalde

ficou estendido o cão;

e agora lembro sua cabeça hirta

com angústia imprevista:

como os humanos, seus olhos reflectiam

o terror ao vazio.

 

 

Mesmo as humildes criaturas invertebradas, em que não encontramos a dimensão trágica da morte por imitação da morte humana, contêm a possibilidade de individualização pela morte. E agora recorro à serena poesia de Fiama Hasse Pais Brandão:

 

NATUREZA MORTA COM LOUVADEUS

 

Foi o último hóspede a sentar-se

no topo da mesa, já depois do martírio.

As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas

por algum vento. Perdera o rumo

sobre a película cintilante de água

no riacho parado. Tal como poisou

junto de nós, com o belo corpo magro

arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,

um santo mártir. Enquanto meditávamos,

a morte sobreveio, e a pequena criatura,

que viera partilhar a nossa mesa,

depois de ter sido banida das águas

foi banida da terra. Alguém pegou

no volúvel alado corpo morto

abandonado sem nexo na brancura da toalha

- que maculava -

e o atirou para qualquer arbusto raro

que o poeta ainda pôde fotografar.

 

 

A morte é tão só, estupidamente, desencarnadamente, a ausência de vida e a memória da mesma. Como uma sombra. Mais uma vez Fiama:

 

A CRIA MORTA

 

As ovelhas baliam ao longe

levadas pelo caseiro

até à outra margem do campo,

quando a verdura escorre mansamente

de socalco em socalco

e fica estagnada numa berma sombria.

Só a sombra

detém esse caudal verde.

E nada susteve a primavera inelutável,

nem a agonia

do cordeiro ante-pascal.

 


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 04 Junho , 2009, 19:33

Se o poeta Jaime Gil de Biedma fosse vivo completaria 80 anos no dia 13 de Novembro. Morreu em 1990, nada tendo publicado desde 1982, abandonando deliberadamente a poesia nos seus últimos anos. Como muitos outros grandes poetas (Francisco Brines, Ruy Belo), estudou Direito. A sua vida movimentada, entre Nava de la Asunción (Segovia), Barcelona e Manila, está em parte recriada no volume autobiográfico "Retrato do Artista em 1956" publicado postumamente (ed. portuguesa da Relógio de Água de 2002). Integrado no grupo de poetas conhecido como "geração de 50", a sua poesia profundamente pessimista e atormemtada é porém mais distendida, mais irónica - por vezes, o poeta vê-se a si mesmo com algum distanciamento - do que a de outros poetas daquele grupo,  mas não é menos intensa. O papel da memória e da infância na sua poesia estão bem presentes no poema "Ribeira dos Amieiros", publicado em 1966 (aqui na tradução de José Bento):

 

São mais velhos os pinheiros

Pelo carreiro abaixo,

sujas de areia e roçadelas,

como os meus joelhos em menino,

espreitam as raízes.

E lá ao fundo o rio entre os álamos

completa como sempre esta paisagem

a que no mundo quero,

enquanto sua lembrança me devolve

entre as primeiras de toda a minha vida.

 

Um pequeno recanto no mapa de Espanha

que sei de cor, porque foi o meu reino.

Poderia imaginar

que o tempo não passou,

como aos seis anos, nessa idade

em que o dormir é o descanso verdadeiro,

com os olhos fechados

e acordado na cama, nas manhãs de inverno,

imaginava um dia do verão anterior.

Com o olor profundo dos pinheiros.

Mas estão estas mudanças tão pouco perceptíveis

nas raízes, ou no próprio carreiro,

que me forçam às vezes a desfazer o andado.

Estão estas lembranças, que não servem senão

para morrer comigo.

 

Pelo menos a vida no colégio

era um indício do que é a vida.

E contudo, são estas imagens

- uma noite a cavalo, o nascimento

terrivelmente impuro da lua,

ou a visão do rio a aparecer

há muitos anos já, num mês de setembro,

a exaltação e o medo de estar só

quando vai entardecer -,

antes de nenhumas outras,

as que voltam e têm um sentido

que não sei bem qual é.

A intensidade

de uma súbita labareda, porventura somente,

e também uma antiga inclinação humana

para confundir beleza e significação.

 

Imagens formosas de uma história

que não é toda a história.

Demasiado me lembro dos meses de outubro,

dos regressos a casa já de noite, a cantar,

com o vento do outono a cortar-nos os lábios,

e da excitação na sala de cima

junto à lareira acesa, quando eram familiares

o ritmo da casa e o das estações,

a doçura de uma ordem artificiosa e rústica,

como as personagens

no papel da parede.

 

Um sonho dos adultos, tudo aquilo.

Sonho da sua nostalgia de outra vida mais nobre,

de outra idade a exaltá-los

para uma eternidade de valiosas quintas,

para além do seu medo de morrer sozinhos.

Assim fui, desde criança, habituado

ao exercício da irrealidade,

e ainda, na melancolia

que me resta de então,

há um rancor de consciência enganada,

ressentimento demasiado vivo

que nem o silêncio e a solidão acalmam,

embora talvez também alguma coisa mais funda

tragam ao coração.

Como o latejo

dos pinhais, ao parar o vento,

que se preparam para escurecer.

 

Alguma coisa que já não é quase sentimento,

uma disposição de afinidade profunda

com a natureza e com os homens,

que até a ideia de morrer parece

bela e tranquila. Tal como este lugar.

 


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