publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 20 Maio , 2010, 13:28

1. A escolha do português como uma das línguas oficiais de Timor-Leste (a outra é o tétum), feita pela Assembleia Constituinte timorense em 2002, é geralmente vista como uma opção sobretudo simbólica por uma língua que, representando uma reposição de uma dada ordem anterior à ocupação indonésia, implicaria contudo a introdução de um idioma desconhecido da quase totalidade da população e que pouco teria a ver, agora como no passado, com a efectiva realidade cultural de Timor-Leste - como se fosse uma planta que se tenta fazer «pegar de estaca» em solo pouco propício para o efeito. Trata-se, contudo, de uma visão distorcida dos factos. Como referem Geoffrey Hull e Lance Eccles, na parte introdutória da sua Gramática da Língua Tétum, editada em 2005, "um dos resultados dos 400 anos de domínio directo e indirecto por Portugal é o facto de as línguas de Timor-Leste (...) terem sido parcialmente assimiladas a uma língua europeia, podendo hoje ser descritas, num sentido literal, como 'europeóides'. O mesmo não se pode dizer do malaio-malásio e do malaio-indonésio, que foram influenciados apenas superficialmente pelo inglês e holandês coloniais, respectivamente. Esta europeização das línguas de Timor-Leste reflecte fielmente a natureza híbrida da civilização dos timorenses de leste, uma síntese inextricável de elementos indígenas e latinos, mais semelhante à cultura das Filipinas do que a qualquer uma da Indonésia" (p. XV).

 

2. Um dos exemplos mais interessantes da referida síntese, ainda que hoje com relevo praticamente apenas arqueológico, é o designado «português de Bidau» (Bidau é hoje um dos bairros da orla oriental da cidade de Díli). O português de Bidau é um crioulo, hoje praticamente desaparecido, que teria surgido, de acordo com Francisco Xavier de Menezes, "com a fixação, naquela área, já antes das campanhas de pacificação, duma companhia de larantuqueiros (de Laratuca) cristãos, a qual com a entrega das Flores aos holandeses, foi substituída por uma companhia de segunda linha que manteve o mesmo falar já comum no bairro" (Encontro de culturas em Timor-Leste, Díli, 2006 - mas correspondendo a uma investigação realizada em 1968 -, p. 213). João Paulo Esperança alvitra, noutro sentido, que "o crioulo português de Bidau deve ter chegado a Díli quando a capital foi transferida de Lifau para Díli, junto com a população da colónia portuguesa, em 1769" (O crioulo português de Bidau e a evolução do tétum praça, «Estudos de Linguística Timorense», Aveiro, 2001, p. 22). Um pequeno exemplo extraído do volume de Francisco Aleixo de Menezes dá-nos a ver um pouco do português de Bidau (observe-se a notória simplificação da conjugação dos tempos verbais):

 

"- Vósse, bai na ôndi?

- Eu bai na riba.

- Vósse vai fazer cuza, bê?

- Eu leva este cànico, vai só lè águ.

- Vósse tira águ, faze cuza bê?

- Eu tira águ, bai cozinha arroze, antis meu marido bên cómi.

- Nós bai na ribeira, bê, toma banho."

 

(Encontro de culturas..., p. 214).

 

A influência do português de Bidau sobre a formação do tétum praça terá sido importante, como demonstra com vários exemplos João Paulo Esperança no texto citado (pp. 25 e ss.).

 

3. O português de Bidau está hoje praticamente desaparecido. Francisco Aleixo de Menezes referia já em 1968 que se encontravam apenas "umas 4 a 5 pessoas idosas (...) que ainda [o] utilizam quando se encontram ocasionalmente" (p. 214) e Luís Filipe Thomaz afirma peremptoriamente que em 1974 se encontrava extinto (Babel Loro Sa'e - O problema linguístico de Timor-Leste, Lisboa, 2002, passim). Não sendo linguista, desconheço os critérios exactos para aferir da extinção de um língua; no entanto, foi-me asseverado por linguistas timorenses que ainda subsistem (raros) falantes do português de Bidau, quer em Díli, quer mesmo em Portugal, na sequência da vaga de refugiados que para aí se dirigiram depois de 1975.


publicado por nobilissimavisione | Terça-feira, 18 Maio , 2010, 16:44

 

Uma amostra do estilo arquitectónico que faz furor em Díli actualmente: um mix de plantation house com wedding cake.

 


publicado por nobilissimavisione | Sexta-feira, 30 Abril , 2010, 15:28
A importância do crocodilo nos mitos timorenses é por demais conhecida. Mas também os estrangeiros se deixam fascinar por este animal, e há quem faça do seu avistamento um dos objectivos da sua estadia aqui, organizando expedições à costa sul, onde existem em muito maior número. Bem, parece que agora deixou de ser preciso fazer grandes viagens. Sucedem-se os relatos de crocodilos avistados na praia da Areia Branca (a menos de 5 km), e mesmo nos limites de Díli, na ribeira que fica logo a seguir ao supermercado Lita. A coisa é de tal ordem que agora, antes de chegar à praia da Areia Branca, encontramos um sinal em forma de losango com a imagem de um crocodilo num fundo amarelo. Será um sinal de trânsito? E de perigo ou genéro indicação de atracção turística? Qual o departamento governamental que o mandou lá colocar? Não sei. Quando conseguir ponho aqui a fotografia. Entretanto já há quem tenha desistido de ir à praia, num onda spielberguiana tipo «Jaws». Mas o melhor é a explicação que já ouvi, repetida convictamente por mais do que uma pessoa, que a presença dos crocodilos se deve aos australianos, que os aqui colocam para tentar limitar as potencialidades turísticas (por enquanto remotas) desta «Riviera» timorense ...

publicado por nobilissimavisione | Quarta-feira, 21 Abril , 2010, 03:39

 

Línguas de Timor 

 

www.fataluku.no.sapo.pt

 

1. Nas ruas de Díli, ouve-se falar o tétum - uma das duas línguas oficiais - e, por vezes, uma das línguas locais de Timor, que provavelmente será o mambae, predominante na zona montanhosa à volta da capital. Ouvem-se de vez em quando palavras em inglês, que os timorenses utilizam para se dirigir aos estrangeiros. Raramente se ouve falar português - a outra língua oficial. Em qualquer loja ou banca de mercado, a tentativa de falar em português não produzirá grandes resultados e raros são os motoristas de táxi com quem se consegue trocar mais do que duas ou três palavras nessa língua. Nos quatro anos que decorreram desde a minha primeira vinda a Timor-Leste, é visível o avanço na difusão do inglês; no português não noto grande diferença.

 

2. Montanha a sul de Maubara. Nevoeiro e tempo fresco, meia hora depois de se ter saído da estrada principal em Liquiçá e 1000 metros acima. Aproximam-se do carro algumas crianças. Saudadas em tétum, percebe-se que não o entendem. Só falam tocodede, a língua da região de Liquiçá. Aqui não é falada nenhuma das línguas oficiais, nem o português nem o tétum. Esta situação relativamente ao tétum seria menos surpreendente se se tratasse de pessoas mais velhas, mas são crianças em idade escolar.

 

3. Aula na Universidade Nacional. Pergunto aos presentes, quase todos falantes de mambae, qual a palavra nessa língua para lei. A questão gera alguma discussão entre os alunos – alguns são mesmo especialistas em questões linguísticas –, acabando por se concluir que não há uma palavra em mambae com correspondência suficiente e que a tradução mais aproximada será “ukun nor badu” (ordem e proibição, ligadas à vontade divina). A riqueza linguística de Timor constitui um património cultural valioso mas frágil; é manifesta a inadequação das línguas locais para a vida moderna.

 

4. Seja como for é espantosa, para um europeu, a variedade linguística existente em territórios circunscritos com uma população relativamente reduzida, como sucede na Guiné-Bissau e em Timor-Leste. Em Timor, há pelo menos uma vintena de línguas locais (não contando aqui com os dialectos): línguas malaico-polinésicas, por um lado – tétum praça, tétum téric, mambae, tocodede, quêmac, nauéti, galóli, ataúro, habo, idaté, lacalei, becais, baiqueno, uaimoa, cairui e mídic – e línguas papuas, por outro – fataluco, macassai, maclere e búnac. Tendencialmente, as línguas papuas são mais faladas na zona leste e as malaico-polinésicas na zona oeste, mas não sucede assim em todos os casos: o búnac, por exemplo, uma língua papua, é falado sobretudo em áreas de Covalima e de Bobonaro, junto à fronteira com a indonésia, e o tétum téric - bastante diferente da evolução que representa o tétum praça (=cidade) –, embora falado na zona de Covalima (Suai) e no Timor indonésio, junto à fronteira com Timor-Leste, é também a língua local da zona de Viqueque.

 

5. O título deste post é tomado de empréstimo (sem licença) ao título da colectânea de textos de Luís Filipe Thomaz (“Babel Loro Sa’e – O Problema Linguístico de Timor-Leste”, Coleccção Cadernos Camões, 2002), sendo o ponto 4 baseado nas informações contidas no último texto dessa colectânea, “A situação linguística em Timor em 1974”.


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 27 Março , 2010, 17:40

1. Remexio. A voo de pássaro, ficará a talvez 10 a 15 km de Díli, acima da Ribeira de Hera, a subir a pique. Pela estrada, sai-se do caminho para Aileu para um trilho de meia dúzia de quilómetros quase intransitáveis. Mais de uma hora de carro. Dois dias antes de lá ter estado, a estrada estivera fechada devido a derrocadas provocadas pelas intensas chuvas. No caminho que vai na direcção de Laclo, a paisagem é mais seca, com floresta aberta de eucaliptos de Timor (palavão-preto e palavrão-branco), mas soberba; continua-se a subir-se e anda-se durante horas por uma cumeada, com as montanhas mais altas da cordilheira de um lado e o mar com as silhuetas de Alor e de Ataúro do outro. Nestes confins remotos, ouve-se inesperadamente o timbre límpido de uma flauta. Mais à frente, aparece o jovem flautista, no cima de um cabeço. Algumas cabras dispersas fazem as vezes de rebanho.

 

2. Também no Remexio se faz sentir o ímpeto do proselitismo. Para além das clássicas confissões protestantes, todo um conjunto de novas igrejas tentam a sua sorte em Timor-Leste. Queixa-se o pároco do Remexio que nem sempre recorrem a métodos leais, utilizando rapazes e raparigas com promessas de namoro como chamarizes para captar novos fiéis. Conta o mesmo pároco que promoveu uma reunião com os responsáveis das novas igrejas para tentar obter uma maior lisura de procedimentos e, revelando uma visão estratégica, uma aliança para impedir o estabelecimento de quaisquer outras confissões ou seitas na aldeia. A difusão do protestantismo anda muitas vezes de mãos dadas com o ensino da língua inglesa. No Remexio, acresce o ensino da flauta, por uma professora de Singapura - neste caso com sucesso, como pude comprovar.

 

3. O Remexio desempenhou um papel importante na resistência ao invasor indonésio. As dificuldades no acesso e os muitos esconderijos aí existentes fizeram com que fosse dos últimos locais relativamente próximos de Díli a cair nas mãos dos indonésios. Do cerco indonésio resultaram muitos mortos.

 

4. Mas o Remexio tem também outras memórias. Andando cerca de uma hora e meia no caminho para Laclo, encontramos na beira da escarpa um singelo monumento evocativo da RENAL. Enquanto a zona esteve em poder da Fretilin, nos anos a seguir à retirada de Díli em Dezembro de 1975, foi instalada no Remexio uma Renal (Campo de Reabilitação Nacional), onde eram aprisionados não só os suspeitos, por qualquer razão, de colaboração com o invasor, mas também os que supostamente se desviavam dos ideiais revolucionários. A voragem autofágica e as purgas daqueles tempos ocasionaram muitas vítimas nestes campos (milhares?). As condições do aprisionamento e dos trabalhos forçados já de si eram poucas propícias à sobrevivência dos detidos, mas a isso acresceu a tortura e a execução de muitos dos supostos prevaricadores e dos seus familiares, por vezes através de execuções colectivas. Uma punição característica destes campos era o encerramento dos prisioneiros em buracos com uma profunidade que por vezes não chegava a um metro, com uma grade por cima, onde acabavam por morrer de sede ou fome, ou então com o lançamento de uma granada, como sucedeu na Renal do Remexio. Muitas destas atrocidades estão registadas no Relatório da CAVR (Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação). Mas outras não estão, como a que me foi relatada por habitantes do Remexio, de uma mulher que, tendo comido um pedaço de jaca sem autorização, foi forçada a ingerir jaca, com a respectiva casca, até morrer. As campas destas pessoas estão muitos metros abaixo do monumento em sua memória, não se deixam ver de cá de cima. Todos os anos a comunidade evoca o período da RENAL encenando alguns destes acontecimentos.

 

O Remexio tem muitas memórias.

 


publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 22 Março , 2010, 04:24

É um livro interessante, mas apresenta alguns defeitos de concepção que tornam a leitura por vezes fastidiosa, sobretudo no primeiro capítulo, onde o Autor pretende apresentar uma espécie de «Teoria Geral do Estado» adaptada ao caso timorense, com escassos resultados positivos. Há também, relativamente a Portugal alguns erros grosseiros - como o pretendido apogeu de um império português no século XVII... - e algumas simplificações primárias - como a afirmação de uma suposta aquiescência portuguesa à integração de Timor-Leste na Indonésia, que segundo o Autor só teria sido revertida á partir de 1992, após o massacre de Santa Cruz -, mas, tirando esses factos, não existe qualquer distorção dos acontecimentos ou qualquer «sentimento» anti-português ao longo da obra. O Autor é um académico respeitado e conhece bem o terreno, tendo coordenado missões de observadores ao Referendo de 1999 e às Legislativas de 2007. As virtudes do livro suplantam em muito os seus (poucos) defeitos. A visão sobre os acontecimentos em Timor-Leste desde 2006 (o livro é de 2009), ainda que largamente descritiva, oferece uma panorâmica precisa dos eventos. Onde o livro me parece especialmente bem sucedido é na explicação da animosidade entre Xanana e a Fretilin a partir das divisões internas que foram ocorrendo neste partido ao longo dos anos 80, entre uma ala mais radical, a dos exilados, e uma ala mais pragmática, que sofria no terreno o peso da ocupação indonésia. As purgas da Fretilin e os constantes desentendimentos que culminaram na saída de Xanana e na autonomização das Falintil da Fretilin são neste livro claramente mostradas como os «momentos fundadores» da violência que eclodiu em 2006. Mais uma vez, a objectividade do Autor permite-lhe apresentar também uma leitura credível da governação e actuação da Fretilin antes e durante a crise. O livro é de novo especialmente incisivo no que respeita à descrição  da (des)coordenação da ajuda ao desenvolvimento e, sobretudo, da própria estrutura das Nações Unidas criada para esse efeito, ficando evidentes não só as «guerras internas» entre os departamentos da Organização que prejudicaram a sua actuação em Timor-Leste, mas também as causas da sua ineficácia geral. O Autor dá-nos ainda uma pré-revelação bombástica: a de que identificou, através de uma fonte que não revela e que teve acesso aos registos das comunicações móveis efectuadas por Alfredo Reinado, a identidade do político timorense que financiava as actividades do Major - reparem, é de um político timorense que se fala, não de generais ou gangsters indonésios. Kingsbury afirma que não revelará a identidade desse político timorense até que seja deduzida uma acusação formal, prometendo que avançará o nome caso essa acusação não venha, afinal, a ser deduzida. Apenas diz que não se trata nem do Presidente da República nem do Primeiro-Ministro. Até quando teremos de esperar?


publicado por nobilissimavisione | Segunda-feira, 08 Março , 2010, 17:13

Maubisse fica a pouco mais de 70 kms de Díli, mas as curvas infindáveis e o mau estado da estrada que as liga implicam uma viagem de mais de 3 horas. Maubisse é uma pacata vila que fica num vale rodeado de altas montanhas, perto do Ramelau, e em plena zona de produção do café. Os seus prados verdejantes são muito diferentes da vegetação tropical da costa e da subida vertiginosa até Aileu, e a calma e o clima fresco do povoado - cultivam-se pêssegos - não podiam ser mais diferentes do bulício caótico e do calor opressivo de Díli.

 

Mas para mim o mais notável de Maubisse é a beleza altiva das suas mulheres, sobretudo das mais velhas, a forma indiferente e quase desafiadora como fumam sentadas nas suas bancas de goiabas e feijões no mercado, ignorando os forasteiros que ali se apeiam por minutos. Mesmo as mais idosas têm os lábios pintados de cor viva, formando um todo vermelho com os dentes manchados pelo bétel, e mostram-se muito aprumadas nas suas roupas domingueiras, com elegantes casacos de estilo europeu que não se encontram em nenhum outro lugar da ilha. As mais jovens escondem a sua beleza discreta atrás de sorrisos envergonhados. Amanhã serão as senhoras de Maubisse, fumando ou mascando folhas de bétel, sentadas nas mesmas bancas sobre as velhas pedras polidas do mercado.


publicado por nobilissimavisione | Sábado, 26 Dezembro , 2009, 17:28

 

Quando fui para Timor-Leste pela 1.ª vez levava a firme intenção de avistar um crocodilo, que é o símbolo mitológico da ilha. Já tinha ouvido várias histórias sobre crocodilos que tinham aparecido esporadicamente nas praias de Díli ou em Manatuto, mas sabia que era na costa sul que o avistamento seria mais provável. Por isso, quando se organizou uma ida ao Suai, o propósito era duplo: comprar tais e ver um crocodilo (lafaek em tétum). A expedição foi um sucesso no que toca aos tais, mas os crocodilos...nada! Nem no Suai (onde se diz ser relativamente comum vê-los), nem em Betano.

 

Foi só na minha segunda estadia, entre Setembro e Dezembro de 2006, que vi o famoso bicho, em todo o seu esplendor. Tendo ido à floresta de Lore, na ponta leste, parámos numa magnífica praia na direcção de Iliomar, para tomar banho, num sítio que nos disseram não ser frequentado por crocodilos. Ainda fui com a máscara um pouco mais ao largo, mas naquela zona não há recifes de coral e a água é mais escura. Quando voltei para a margem, uma das expedicionárias, que não tinha entrado dentro de água, diz ao nosso guia: "Senhor Rui, vem aí uma coisa que parece um tronco com olhos....". E era mesmo um crocodilo! Debandada geral, tudo para fora da água, e ficámos um pouco mais acima da praia a fazer um piquenique. O bicho ainda ali ficou uma boa meia-hora, mergulhando e vindo ao de cima, aproximando-se pouco a pouco da praia. Não parecia ser dos maiores (2,5/3 metros? - os crocodilos de água salgada podem ultrapassar os 6 metros). A foto foi tirada pelo Joel Santos, que estava conosco e «imortalizou» o momento. Uma emoção, ter ali um animal que parecia vir de tempos imemoriais, com bastante vontade de nos trincar! Foi uma viagem memorável, também por este motivo!

 

 


publicado por nobilissimavisione | Domingo, 28 Junho , 2009, 13:38

A história do café de laco é uma das minhas histórias preferidas de Timor-Leste, pois ilustra a simbiose entre o Homem e o laco (e o fruto do café), resultando a "colaboração" dos três num produto de excelência. O laco é um bichinho muito engraçado, parece de facto um peluche: do tamanho de um gato, focinho comprido, ollhos grande, cauda grande, pelo catanho escuro curto. Diz-se que são facilmente domesticáveis. Ora, o laco alimenta-se de fruta, incluindo os frutos do café. Séculos de especialização permitem-lhe um excelente know-how na escolha dos frutos do café no ponto ideial da maturação. Comido o fruto do café, é expelido interiro, nas fezes do laco, apenas sem a película vermelha exterior. É limpo e depois torrado. Tem um sabor forte, que advém da fermentação que sofre dentro do dito laco. O laco é um animal nocturno, e à noite o cheiro dos seus excrementos nos cafezais distingue-se facilmente. Tudo isto pode parecer matéria organica a mais, mas o sector primário da economia é isso mesmo, e o café é de facto muito bom, atingindo preços perto do milhar de dólares em Nova Iorque (também se diz que é bebido pela Rainha de Inglaterra). Não é fácil encontrar o café de laco, mesmo em Timor-Leste; se não fosse a minha amiga Maria Ângela, não o teria conseguido provar. Aliás, a Maria Ângela tem um post bastante desenvolvido sobre este assunto no seu blogue do Público, para onde remeto com a devida vénia. Como isto parece uma história de encantar, falta a parte triste: diz-se que o laco é muito apreciado na gastronomia imorense, e que faz um óptimo estufado, razão pela qual é caçado com persistência. Não sei se isto é verdade ou não, mas uma vez em Díli, perto do Palácio das Cinzas, vi um laco a ser transportado numa gaiola pendurada num pau ao ombro de um homem. Apreçado o animal, era sessenta dólares (americanos); ainda pensei em comprá-lo para o devolver (ou forçar) à liberdade, mas logo desisti e me conformei com a dureza da vida e do mundo. Este café do laco poderia ser um produto de exportação com interesse, dado o seu alto valor e as potencialidades de markentig (para todos os gostos...) do assunto, mas não sei sequer se as quantidades disponíveis o permitem. Sei que é também produzido em Java e noutras ilhas da Indonésia. Talvez o Augusto Lança tenha alguma informação ou ideia sobre isto que possa partilhar.

 


publicado por nobilissimavisione | Quinta-feira, 04 Junho , 2009, 00:10

A «redundância da coragem» é um livro de Timothy Mo, um autor de Hong-Kong, publicado originalmente em 1991. É um daqueles livros de leitura compulsiva, que uma vez iniciada não se consegue parar. Conta a história dos primeiros e terríveis anos da invasão indonésia e da resistência em Timor-Leste. O autor apenas mudou o nome do país, de Timor-Leste para Danu, e os nomes das personagens reais que aparecem no livro. Li-o há bastantes anos, mas só quando fui dar aulas para Timor-Leste e me comecei a interessar mais pela história do país me dei conta do rigor histórico da narrativa. É um livro poderoso, muito «negro», mas com um estilo irónico dado por um narrador aparentemente alheado do espírito da luta pela independência e pela sobrevivência - nunca deixa de se ver como alguém diferente (é de ascendência chinesa) dos seus companheiros da Resistência . Penso neste livro bastantes vezes. É a única obra de Timothy Mo traduzida em Portugal, julgo. A edição portuguesa é de 1992, da Puma, e está esgotada (infelizmente) há muito tempo.

 


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